Primeiro livro de contos  



O triste fim de um grande sonho


Na reunião do Partido o chefe dizia que uma vez que o socialismo tivesse atingido a normalização as pessoas inúteis seriam eliminadas da sociedade,  restando apenas as úteis.  Todos aprovaram.  Com muita sagacidade e esperteza.  Com sabedoria,  o Partido chegou ao poder.  Entre seus membros,  todas pessoas úteis, estavam professores que davam aulas para crianças inúteis,  babás e cuidadoras que atendiam crianças pequenas e idosos inúteis.  Professores de ensino superior que ensinavam à adolescentes e jovens inúteis.  Médicos que atendiam pacientes inúteis. Advogados e policiais que atendiam gente inútil que não sabe nem se defender sozinha.  Artesãos e produtores rurais que atendiam gente inútil que não sabe produzir o próprio alimento,  nem a própria roupa,  nem a própria casa..  E etc.  Para cada inútil um útil para cuidá-lo 

A cidade ficava em um planalto.  Numa extremidade do planalto,  à direita, havia uma floresta de mata atlântica onde havia onças,  macacos,  papagaios, araras,  tucanos e outras espécies interessantes.  Na outra, à esquerda,  o abismo.  Decidiram que os inúteis seriam aí todos jogados.  E assim se fez.  Reuniram-se novamente e disseram: “aí está.  Agora só tem nós,  os úteis”.  Perguntaram, porém, os professores de crianças e os de universitários,  “como seremos úteis agora se não há mais crianças inúteis para ensiná-las?  Nós só sabemos fazer isso”.  Perguntaram as babás e cuidadoras: “Como seremos úteis se não há mais crianças pequenas e velhos inúteis? É só isso que sabemos fazer”.  Perguntaram os médicos: “como seremos úteis se já não há pacientes inúteis para atendê-los? É somente isso que sabemos fazer”.  E assim cada classe do Partido questionou,  protestou.  Por fim,  por sua vez,  o comandante disse: “vocês também são todos inúteis porque não sabem nem governar a si mesmos.”  A constatação gerou inquietação,  perplexidade,  surpresa,  espanto:  “O que devemos fazer? As causas da nossa utilidade já não existem mais.  Somos todos inúteis. O que fazer?”   Depois de muito pensarem, esses sábios chegaram a uma maravilhosa solução,  realmente engenhosa,  genial:  saíram todos do lugar de reunião do Partido com destino conhecido,  certo.  À esquerda, naquele belíssimo planalto.       





          O estranho caso de Dom Gauderito:  sua loucura e seu legado

O trabalho abaixo não é meu,  mas de autor anônimo.  Encontrei na Biblioteca Municipal da cidade de Santa Fé.  O autor parece ser alguém um tanto retrógado,  pois chama o Rio Grande do Sul de Província de São Pedro numa obra concluída certamente depois da Proclamação da República.   No entanto,  apesar do passadismo da obra achei que seria interessante torná-la pública.  Só tive o trabalho de digitalizar o manuscrito que encontrei na biblioteca.  Com o seguinte título e conteúdo:     

O estranho caso de Dom Gauderito:  sua loucura e seu legado

Introdução

O extremo-oeste da Província de São Pedro,  fronteira com a Argentina e com o Uruguai, é uma região plana,  com um tipo de paisagem que lembra as estepes da Ásia Central e as pradarias dos Estados Unidos e que os habitantes locais chamam “pampa”:  terreno baixo com algumas áreas mais elevadas chamadas “coxilhas”.  Na parte mais sudoeste,  onde está situada a cidade de Santa Fé,  o céu apresenta uma presença e ação irregular da força das chuvas:  longas secas com alguns períodos mais chuvosos.   Disso resulta uma paisagem em forma de pradaria ou estepe,  interrompida de vez em quando por áreas mais arborizadas e com elevações relativamente grandes para uma região de planície.  Nessas pradarias,  pampas ou estepes (como o leitor quiser chamar) habitam tatus,  graxains,  veados campeiros, gambás,  beija-flores,  pica-paus,  emas e  quero-queros.  Habita também um tipo humano que está presente nos países vizinhos com o nome de gaucho (sem o acento agudo no u) e que nessa região é chamado “gaúcho.”  A região toda,  norte e sul,  que inclui as cidades de Bagé,  Dom Pedrito,  Uruguaiana,  Santana do Livramento,  estende-se por um território de cerca de 16.300 k.2,  e recebe o nome de “Campanha”.    

Se os tipos humanos podem ser divididos pela ocupação somos forçados a dizer que o gaúcho brasileiro  é o mesmo tipo humano que o gaucho uruguaio ou argentino,  ou ainda que o vaqueiro do nordeste do Império do Brasil ou o caubói da República dos Estados Unidos da América.  Mas o modo de falar é diferente,  o que revela uma diferença na psicologia,  pois,  como diz o Filósofo,  as palavras são símbolos de afecções da alma[1],  e o gaúcho brasileiro não expressa a sua alma com a mesma linguagem que o gaucho dos países vizinhos,  ou que o vaqueiro do nordeste brasileiro ou o caubói norte-americano.  Se etnias se distinguem por costumes e o modo de falar é um costume,  somos forçados a admitir que o gaúcho brasileiro constitui uma etnia distinta embora o tipo humano seja o mesmo.

É o tipo que vive no campo,  isto é,  nessa região de pampa,  cuidando do gado.  Pelo menos era nesse sentido que a palavra era usada originalmente.  Depois,  por razões que nos escapam,  passou a ser usada para designar todos os habitantes dessa mais meridional das províncias do Brasil.  

Essa gente, quando está desocupada, gosta de passar o tempo contando e ouvindo o que chamam “causos”.  Parece que essa palavra significa o mesmo que “conto”,  mas causo é um tipo de literatura oral,  e não escrita,  e nos causos que pude ouvir nas pesquisas de campo que fiz em minha atividade de etnólogo pude notar a presença de certas lendas locais nesses contos.

  Talvez seja melhor chamá-los “canções de feitos”,  como as “canções de gesta” da Europa Medieval,  conquanto não sejam cantados.  Todavia é um costume nessa região a prática da pajada,  que é o poema declamado de improviso ao som do instrumento que em Espanha é chamado guitarra e tanto no Brasil como em Portugal de violão. 

      Passei um bom tempo com essa gente,  em pesquisa de campo,  não só como etnólogo,  mas também como historiador e antropólogo.   Dediquei-me a participar do que chamam de “contação de causos”,  um deles me chamou bastante atenção porque me fez pensar que a famosíssima estória de Dom Quixote de La Mancha, que todos conhecem,  e que os historiadores de hoje dão por estória fictícia inventada pelo gênio de Cervantes,  pode ser um caso de uma possibilidade humana.  Uma possibilidade terrível, é verdade,  mas por isso mesmo que não deve ser ignorada pelos antropólogos,  muito menos pelos psicólogos.  Conversei com alguns historiadores da região,  que me confirmaram ter realmente acontecido o que será contado mais adiante.  O leitor irá notar que sobre esse caso ainda param dúvidas. Compreensível:  O passado,  conquanto seja certo em si mesmo,  em muitos de seus passos é incerto para nós.  Mais incerto ainda para os descendentes de Heródoto,  porque,  se a História é uma ciência e o historiador um cientista,  como todo cientista o historiador gosta de encontrar problema onde tem e onde não tem.  Nesse caso,  porém,  as dúvidas são compreensíveis.  Pois os que contam esse causo não o contam do mesmo modo.  Daí as dúvidas e divergências entre os historiadores.   Nesse meu trabalho de pesquisa que é um trabalho de pesquisa historiográfica séria,  além de ser também um trabalho de pesquisa etnológica, antropológica e psicológica,  tratei de resolver essas divergências:  fui direto as fontes, isto é,  aos contadores do causo  e transmitirei aqui não as diferentes versões que ouvi mas o resultado de minha investigação.  Nas notas explicativas, porém,  exporei algumas diferenças.  Cuidei de,  na medida do possível,  manter a linguagem de quem contava,  para que fique claro para o leitor que não é estória inventada por mim,  mas é um “causo” que alguns habitantes de Santa Fé me contaram.  Causo que chamei de “O estranho caso de Dom Gauderito e sua loucura”.     Certamente o leitor irá achar graça dessa minha tentativa de imitar o falar do “gaúcho”,  mas foi a maneira que encontrei de deixar claro que se trata de um trabalho de pesquisa científica sério,  que merece receber a devida atenção do meio acadêmico.    

Por fim,  gostaria de agradecer a todos que me ajudaram a realizar esse trabalho:  em especial os habitantes de Santa Fé, que me receberam muito bem,   e as  minhas fontes primárias,  isto é,  os contadores do causo,  que me pediram para que eu não revelasse seus nomes.  Por isso nas notas explicativas,  que nessa obra são muitas,  não para enfastiar o leitor mas para (perdoem-me a repetição) deixar claro que se trata de um trabalho científico sério,  as fontes vem com os nomes abreviados,  para manter o sigilo.  Enfim,  termino esse arrazoado desejando ao leitor uma boa e divertida leitura. 

Porto Alegre,  dia 9 de julho do ano  da graça de Nosso Senhor de dois mil e vinte e dois. 

Palavras chaves:   Dom Gauderito,  gaúcho,  lendas gaúchas,  causos,  loucura

Key Words:  Dom Gauderito,  gaucho,  legends of gauchos,  stories, craziness

Capítulo 1:  Dom Gauderito e sua loucura

Há não muito tempo viveu[2],  numa estância[3] perto de Santa Fé,  cujo nome não posso revelar[4],  um fidalgo que só queria ouvir causos de gaúcho[5]. Os historiadores que tratam desse caso discutem se o nome do cavalheiro era Manoel Oliveira ou Manuel Soleira.  Parece,  pelas pesquisas que fiz,  que era Soleira mesmo,  mas,  seja como for,  o dito fidalgo só queria ouvir causos.  Ouvia que nem um abobado e tanto que de tanto ouvir e (barbaridade!)[6] imaginar o que ouvia,  deu de acreditar[7] que era causo verdadeiro o que lhe vinha no ouvido.  Lhe saiu o juízo da cabeça e ele largou o rancho velho[8] para virar gaúcho  aventureiro,  que não para quieto na querência[9] e tá sempre afim de agito[10]

Saiu com seu bagual[11] velho, que chamou Bagualante[12],  chamou a si mesmo de Dom Gauderito e foi em busca de estória pra contar[13].   Foi até onde lhe disseram que era a toca da mboibatá,  que nas lendas locais é uma cobra-de-fogo comedora de olhos[14].  Decidiu que seria sua primeira aventura,  enfrentar-se com o bicho dos infernos,  para ganhar fama de bagual,  que vive em estância e não tem medo de assombração.   Correu,  correu,  correu, e parou num lugar para descansar.  Um lugar arvoreado[15],  perto de um riacho bem aguado,  com uma árvore onde num galhos estava dependurado um pedaço de madeira retorcido na cabeça que sabe-se como foi parar lá.  Foi pra baixo da tal arvre[16],  fez fogo,  e se deitou tranquilito[17] parar tomar um descanso antes do pôr-do-sol,   pois era de noite que haveria de enfrentar com a mboitatá.

Dormia,  dormia, enquanto queimava o fogo que ele tinha aceso e esquecido de se apagar.  E o fogo subia,  subia,  e uma hora o fogo chegou naquele pedaço de madeira retorcido na cabeça.    Foi nesse momento que Dom Gauderito se levantou de sobressalto para apagar a fogueira e,  vendo o galho retorcido pegando fogo, julgou que fosse a terrível cobra dos infernos.  Mas não teve medo:  Pegou sua garrafa,  a garrafa que tinha trazido,  e jogou água-benta na cobra . Estava louco de faceiro[18] nosso fidalgo,  julgando que tinha estória que lhe iria granjear fama duradoura quando viu que era galho a serpente e que  fogo era da lareira por ele acendida[19].  Pensou:  “É feitiço da Teiniaguá”.  Vou atrás dessa velha feiticeira e juro pelo meu Bagualante que ela não há de me enfeitiçar.[20]

Foi até o Cerro do Jarau[21] e lá,  chegando na gruta da Teiniaguá,  entrou sem medo,  e foi entrando,  entrando.   Mas não tinha nada.  No fundo da gruta nada tinha.  E ele pensou:  Teiniaguá é esperta; se fez invisível porque sabia que eu ia atrás dela e tem medo de mim.   Dessa vez ela escapou da próxima, não irá escapar. 

E ditas essas palavras saiu caverna afora e andou,  andou,  andou, montado no Bagualante, até chegar numa estância onde um neguinho pastoreava gado manso.   O neginho vivia de boas[22] com seu patrão,  mas como nosso fidalgo via o que imaginava[23], pensou que fosse ninguém menos que o lendário “negrinho do pastoreio”[24], e querendo salvar o menino do patrão malvado entrou na fazenda e saiu desafiando o dono do pago[25] dizendo:  “pare de maltratar esse pobre negrinho,  que nenhum mal te fez”.    

O dono do pago,  vendo estranho entrar em sua querência de surpresa,  também não avisou:  pegou a espingarda e: “bam! Bam!,  bam! E o nosso fidalgo,   mais assustado que cachorro em festa de ano-novo saiu correndo que nem procurado e foi-se mato adentro deixando Bagualante ali mesmo no rancho do vizinho.  

Aconteceu que o negrinho da estância teve de ir para o mato atrás de um potro[26] perdido e o Dom Gauderito,  que via o que imaginava,  imaginou que se tratava do Saci andando com uma perna-de-pau[27].   Não viu o cachimbo[28] e perguntou:  “Ô seu Saci,  perdestes teu cachimbo! Deixa que eu vou te ajudar”.   E o menino,  vendo que o home[29] não batia bem das idéias[30],   para se alegrar um pouco,   resolveu armar peça para Dom Gauderito.   Disse:  “O,  sim sinhô,  uns índio véio[31] malvado pegaram meu cachimbo e deram no pé.  Eles foram pra lá.  Toma cuidado”,  disse o menino apontando para a parte onde a mata se adensava.  

Enquanto loroteava[32] dos olhos do menino caiam lágrimas de crocodilo[33] e o Dom Gauderito,  que bom cristão era, apiedado do menino,  disse:  “Não chores, ó menino.  Fique aqui e eu vou atrás desses índio pegar teu cachimbo”[34].   E foi.  O negrinho quando viu que o home tava longe,  desatou a rir,  pegou o potro xucro[35] e se encaminhou com ele de volta a querência.

Enquanto isso nosso fidalgo adentrava o mato denso armado com sua água benta e fazendo o sinal da cruz.  E foi andando,  andando,  andando,  sem achar índio nenhum.   Pensou consigo mesmo:  era mesmo o saci,  que me pregou uma peça[36].  Mas vá lá.  Deus perdoe.  E foi andando,  andando,  andando,  pra sair daquele matagal.   Andou,  andou,  andou,  montado em Bagualante,  sem saber por onde andava,  quando avistou ao longe uma fazenda,  que não sabia de quem era,  mas que já tinha visto muitas vezes.  Pensou: Vou pedir abrigo,  porque já tô de canseira[37],  e com corpo doído. 

Era a estância que ele tinha,  e nem se lembrava, porque de tanto ouvir lorota[38] deu de viver em outro mundo,  que era coisa da sua fantasia.  Os peão[39] ao reconheceram o patrão ficaram louco de faceiro,   levaram ele até a casa-grande, e ele perguntou: “vancês, quem são?”[40].  Ao que um dos peões respondeu:  “pensei que o patrão tinha tomado chá de sumiço[41].  Onde vancê estava?”.   Assustado de ser chamado de patrão por aquele home,   Dom Gauderito perguntou-se a si mesmo que lugar era aquele e foi tirando,  tirando,  coisa da memória até que se lembrou:  “É minha querência amiga.  Virgem Nossa Senhora! Tô muito tempo fora, amigo? Deus que me perdoe! Eu devia estar cuidando da querência.  Tenho que ver Padre Bonifácio,  porque quem falta assi com o dever tem que confessar.”

E ele contou aos amigos véios[42] suas sandices e eles riram a valer,  e ele mais que todos,  porque tava curado da doidice,  sabe? Depois agradeceu a Deus Nosso Senhor,  foi tomar uma canjica,  deitou na cama e dormiu.      

Capítulo 2:

Nota a esse capítulo:

O leitor irá achar estranha a mudança de linguagem.  A razão disso é que o autor quis variar a testemunha,  para que os senhores pesquisadores tenham meios de ver se trata-se ou não de caso verídico.   Como os capítulos não tiveram a mesma testemunha como fonte,  pode-se ver perfeitamente,  pela coerência que eles apresentam entre si que deve ser dada uma resposta positiva à questão anterior.  Enfim,  comecemos o capítulo.

Começa o capítulo 2 

O que a testemunha me contou do que aconteceu depois da aventura de seu Manoel como Dom Gauderito foi o seguinte:  Depois que acordou,  Manoel Pereira esteve com sua patroa[43].  Foi uma noite agradável e nove meses depois Celina Matos Soleira deu a luz a dois gêmeos.  A infância de Manoel Soleira Filho e de Manuel Soleira Júnior transcorreu normalmente nos primeiros anos[44].  O pai os levava para andar a cavalo,  passear pelos campos,  ver a paisagem e a vida que descrevemos na introdução dessa obra.  O pai lhes contava estórias.  Certa vez, quando estavam mais crescidinhos, Soleira lhes contou da vez que decidiu ser Dom Gauderito.  E os advertiu que podiam ouvir causos,  mas que não deviam amá-los,  porque,  quem ama o faz de conta transforma-se em faz de conta, dizia ele[45].   A lição foi ouvida pelos dois filhos.  Júnior gostou mais da estória da aventura do seu pai que da lição.     

Os passeios eram de tarde, porque de manhã iam à escola.  Era uma escola rural,  com uma única professora vinda da capital da Província,  pertencente a uma congregação de freiras missionárias[46].   Ensinava os alunos a ler,  escrever, contar e também geografia e história.  Não era nenhuma erudita,  mas era entusiasmada pelo que fazia,  e sonhava em ir para Coimbra,  estudar na Universidade.   Aos alunos que lha perguntavam como ela sabia tanta coisa (ao ver deles) respondia confessando o seu sonho de estudar na Europa.  Os alunos,  que nem sabiam haver uma universidade numa cidade chamada Coimbra, lá,  do outro lado do mundo,   ficavam admirados com sua sabedoria.  Olhavam-na como se fosse a própria deusa Atena e a palavra da professora era para eles como se fosse a palavra de Minerva[47]. Ela,  que não era ignorante de mitologias,  por dentro ficava contente de ser tratada como uma deusa,  mas,  como boa cristã, mais dentro ainda pedia perdão ao Senhor pelo pecado de vanglória.  Houve um momento em que começou a se sentir culpada por ser professora.  Pensou que ensinar era expor sua alma ao perigo de pecado e quis largar o ofício. Pediu demissão para a superiora da Congregação e avisou os alunos.  Manoel Filho ficou triste simplesmente porque Dona Luminária (era assim que a chamavam apesar da pouca idade) era boa professora e também pessoa boa.  O Júnior entristeceu-se porque não iria mais ouvir a sabedoria da professora que ouvia como quem ouve causos.    

 

Capítulo 3

Os anos se passaram e Manoel Júnior ainda se lembrava de Dona Luminária.  Agora ela já  estava chegando nos 40 e vivia em Porto Alegre,  trabalhando como cozinheira no convento das Irmãs do Ensino Caridoso.  O próprio Júnior,  que a época em que fora aluno de Dona Luminária era um rapazote de 13 anos,  estava agora com 23.   23 anos! Já um homem.  E que memória! Porque lembrava que Dona Luminária,  10 anos antes dissera que iria para Porto Alegre,  pedir a superiora uma função humilde na Congregação.  Precoce,  Júnior,  dizia com o seu senso crítico de jovem:  “É uma pena,  era tão boa professora.  E se nós pudéssemos tê-la de volta?”. 

  Assim pensava o filho mais novo de Manoel Soleira enquanto o mais velho,  também com 23 anos,  só cuidava de trabalhar na estância,  permitindo-se de vez em quando ouvir os causos contados pelos peões,  sem esquecer a grave advertência do pai.  Júnior também os ouvia,  mas gostava mais ainda do estudo crítico,  filosófico,  das fábulas que ouvira de sua mãe,  Dona Celina,  na infância.  Falamos pouco de Dona Celina, a essa altura já morta.  Digamos que era uma boa pessoa, boa e simples,  que procurava incutir sabedoria em seus ingênuos filhos contando-lhes fábulas[48].  E repetia o mesmo conselho do pai quanto o não amar o “faz de conta”. Tal como aconteceu na vez em que Manoel Soleira contou aos dois filhos do dia em que foi Dom Gauderito também aí Júnior lembrou-se mais das fábulas da mãe do que da advertência.  

Capítulo 4

Ele se lembrava das fábulas da mãe.  Não lhe saíam da cabeça.  Lembrava também da lição que ouvira de Dona Luminária:  que a literatura, oral ou escrita,  era importante,  porque dela haurimos consciência da realidade.  Não a realidade crua, que vemos com os olhos,  mas a realidade mais profunda das razões,  motivações e sentimentos humanos.  Perspicaz que era e tendo aprendido pela leitura das Sagradas Escrituras que a consciência sem obras é morta concluiu que devia encontrar na meditação das fábulas de infância a solução para a tristeza que o dominava pela saudade da ex-professora.

No que essa meditação terminou dando deixemos para mais adiante por enquanto vamos deixar Manoel Júnior meditando em seu quarto na fazenda em Santa Fé e viajemos para Porto Alegre para rever Dona Luminária.

Capítulo 5

  Na cozinha do Convento das Irmãs do Ensino Caridoso estava a ex-professora Luminária, Irmã Luminária como era chamada.  Trabalhava como uma das serventes.  Tranquilamente,  com a vida modesta,  escondida,  que queria ter.   O tempo em que tinha sido uma professora admirada pela sua sabedoria era agora uma vaga lembrança.  Qual não foi sua surpresa quando num dia,  aí por volta de agosto de 1873,  a porteira do Convento a chamou dizendo que um rapaz,  que aparentava ter 20 e poucos anos,  de aparência rústica mas forçando boa-educação, disse que a conhecia, que tinha sido seu aluno, e queria vê-la?

Se o leitor não está entendendo nada,  tampouco nós entendemos.  Júnior nunca revelou a ninguém que profunda meditação fez para decidir ir a Porto Alegre em busca de sua ex-professora.  Só podemos tecer conjecturas e,  como esse é um trabalho científico sério,  as conjecturas ficam de fora. 

Sabemos,  porém, que fora para levar Dona Luminária de volta para Santa Fé.  Ela não quis.  Ele, inconformado,  decidiu seqüestrar a freira.  Acabou sendo capturado pela guarda municipal e posto na prisão.  Vejamos no próximo capítulo como a família de Manoel Júnior em Santa Fé recebeu a notícia do sucesso do filho  

 

Capítulo 6

“Pedindo novamente perdão pelo meu erro,  peço a ajuda necessária para sair dessa situação”

Manoel Soleira terminava a ler uma carta enviada por Manuel Júnior da prisão.  Estava já idoso.  Cerca de 70 anos[49].  Com tristeza leu a carta em que o filho mais novo confessava estar preso em Porto Alegre e pedia a quantia ($) necessária para sair dessa lastimosa situação.  Pensou:  Pedirei para Manoel Filho ir até Porto Alegre recuperar seu irmão mais novo. 

Capítulo 7

E assim foi Manoel Filho em busca de Manoel Júnior.  Quando chegou em Porto Alegre,  dois dias depois da prisão,  o irmão mais moço já tinha sido solto, graças a súplica de Irmã Luminária,  que entendeu tratar-se de um lunático que havia amado o faz de conta a ponto de querer trazê-lo para a realidade:  na mente de Manoel Júnior,  ele não havia tentado seqüestrá-la,  mas ao contrário,  tinha ido  resgatá-la em Porto Alegre.  Ele era o herói que viajou quilômetros para resgatar a amada da prisão.

Aliás,  não sabemos e não há nenhum indício da existência de um amor passional de Júnior por Luminária.  Ele queria menos ela do que a sabedoria dela.  Não era contra que ela fosse uma religiosa,  uma freira,  contanto que voltasse a ensinar.  Foi difícil para ela convencer o pobre rapaz que ela não podia.  Com dificuldade ele entendeu.  Pela primeira vez prestou atenção na lição que ouvira do pai na infância.  Teve que ouvir um sermão do seu irmão mais velho e voltou para Santa Fé,  livre mas sem o tesouro procurado.

Capítulo 8

Manoel Soleira,  outrora Dom Gauderito,  recebeu o filho como Jacó a José,  se bem que a figura de Júnior se parece mais com a do filho pródigo.  Houve um festerê[50], com canto,  gaita e violão e todos quiseram ouvir o causo,  dessa vez,  perfeitamente real.             

Capítulo 9

De acordo com os causistas[51] viveu,  o Manoel Pai,  ainda mais 20 anos.  Morreu, portanto, bastante idoso na companhia de seus filhos,  das mulheres de seus filhos,  das quais nada sabemos, e dos filhos de seus filhos[52].  Antes de morrer agradeceu a Deus por tê-lo ensinado que quem ama o faz de conta transforma-se em faz de conta.  Lembrou essa lição a seus netos e entregou a alma cansada ao Senhor.   O ano era 1893. 

Capítulo 10

Conclusão: 

Esta é história, portanto,  de Dom Gauderito, ou melhor,  de Seu Manoel Soleira.  História que não deveria ser ignorada dos historiadores, nem dos psiquiatras,  nem dos psicólogos.  Esperamos que com essa causo possamos, no futuro,  revolucionar os estudos acadêmicos em ciências humanas e médicas.

Grato pela paciência,

O autor.  

   

 



[1]  Aristóteles,  Sobre a interpretação,  livro I,  capítulo 1

[2]  Pelos nossos cálculos o caso teria ocorrido entre 1849 ou 1850   

[3]   Estância:  O mesmo que fazenda, propriedade rural

[4]    A pedido das fontes consultadas que pediram que essa estância que teve a alegria de ter como dono o lendário Dom Gauderito permaneça longe dos olhares dos curiosos.   

[5]  Pelo título de fidalgo conclui-se que se tratava de alguém de ascendência nobre.  O Doutor Tucídides Soleira Campos,  parente de Manoel Soleira,  e diretor do Instituto Histórico e Genealógico de Santa Fé está preparando uma obra que será o trabalho decisivo sobre o assunto.   

[6]   Barbaridade:  Expressão gauchesca usada ora para expressar espanto , ora admiração, 

[7]   Deu de acreditar:  Resolveu acreditar

[8]   Rancho velho:  Forma carinhosa de se referir a uma propriedade rural 

[9]  Querência:  Pode-se significar a pátria,  o lugar onde se vive   

[10]  Afim de agito:  Com vontade arrumar confusão

[11]  Bagual:  Uma raça de cavalo.  Por analogia (....)

[12]  Bagualante:  Note o leitor a semelhança do nome do cavalo de Dom Gauderito com Rocinante,  nome que Dom Quixote deu ao seu cavalo.  É caso para os psicólogos estudarem.  

[13]   Note o leitor a semelhança com o que Cervantes narra a respeito de Dom Alonso Quijada,  que decidiu se chamar Dom Quixote.  Em ambos os casos o sujeito acometido de loucura inventou um novo nome para si.  

        

 

[14]  A lenda da mboitatá que conhecemos da obra de Simões Lopes Neto se passa num tempo muito anterior a época em que teria vivido Manoel Soleira.  Que ele tenha acreditado que essa cobra-de-fogo habitava na região parece ser uma forma desconhecida de loucura.  Caso digno do Doutor Simão Bacamarte.  

[15]   Arvoreado: O mesmo que arborizado

[16]   Arvre:  Forma contrata de árvore

[17]   Tranquilito:  Tranquilo, sossegado 

[18]   Louco de faceiro:  muito contente

[19]  Esse episódio nos faz pensar como o desejo da fama pode ser um motor para a loucura

[20]   A lenda da Teiniaguá é contada por Simões Lopes Neto em suas “Lendas do Sul”.  Remeto o leitor a obra do grande escritor gaúcho. 

[21]   Localidade situado na cidade Quaraí,  no extremo-oeste da Província de São Pedro  

[22]   Vivia de boas:  Estar em paz

[23]   Também vemos esse comportamento mental em Dom Quixote.  É digno de estudo dos psiquiatras. 

[24]   Ver a obra já mencionada de Simões Lopes Neto

[25]   Pago:  Propriedade rural

[26]  Potro: cavalo novo

[27]  Aqui parece ser outro elemento interessante da loucura de Dom Gauderito 

[28]   De acordo com a lenda o saci pererê usa um cachimbo

[29]   Home:  Forma regional de dizer homem  

[30]   Bater bem das idéias:  Ser mentalmente são  

[31]   Véio:  Velho

[32]  Lorotear: Contar uma mentira 

[33]  Lágrimas de crocodilo:  Choro falso

[34]  O modo de escrever não se trata de erro meu.  Quis apenas preservar o modo de falar de minha fonte

[35]   Xucro:  Arisco

[36]  Pregar uma peça:  Fazer uma brincadeira

[37]   Estar de canseira:  Estar cansado

[38]   Lorota: conto ou narrativa mentirosa 

[39]   Novamente reproduzo aqui o modo de falar de minha fonte

[40]  Idem

[41]   Tomar chá de sumiço:  Desaparecer 

[42]  Ib idem

[43]   Patroa:  Na linguagem da região o mesmo que esposa, consorte

[44]   É digno também de estudo psicológico os nomes que nosso herói quis dar aos seus filhos.  Parece que mesmo após a cura da loucura ainda restava em sua mente o desejo da fama póstera. 

[45]   Em linguagem culta “quem ama o fictício transforma-se em fictício”.  Palavras que nos lembram os versos de Camões: 

 

Transforma-se o amador na cousa amada,

por virtude do muito imaginar

 

[46]  Trata-se das Irmãs do Ensino Caridoso,  congregação muito pouca conhecida ainda hoje  

[47]   Entenda, por favor o leitor,  que não eram os alunos dessa notável professora que pensavam em Atena, ou Minerva,  quando a ouviam desinteriorizar sua sabedoria. Mas esse é o modo que encontramos de expressar a admiração que eles,  segundo nossa fonte, sentiam.  

[48]  Que as fábulas são úteis na educação já o sabia Chesterton.  Aconselho o leitor que leia:  “A ética do país das fadas” do referido autor.     

[49]  A idade colocada de cerca de 70 anos é importantíssima.  Ora, se Manoel Júnior tinha 23 anos quando foi para Porto Alegre e isso ocorreu em 1873 significa que ele nasceu em 1850.  Disso se concluí que foi ou nesse mesmo ano ou em 1849 que ocorreu a aventura de Manoel Soleira como Dom Gauderito.  A dúvida fica pelo fato de não sabermos se o episódio ocorreu no 1º ou no 2º semestre do ano.  Deixemos essa discussão para os historiadores.  Enfim,  concluímos também que Manoel Soleira tinha 47 anos quando de sua aventura.   

[50]  Festerê:  Grande festa

[51]   Causistas:  Contadores de causos

[52]   Um trabalho primoroso sobre a família Soleira está sendo preparado pela equipe do Doutor Políbio Matos,  parente de Dona Celina,  também do Instituto Histórico e Genealógico de Santa Fé.  O trabalho incluirá biografias escritas pelo egrégio Doutor Plutarco Soleira,  parente de Seu Manoel.   



    1. Estudar pra quê?

Me lembro bem de certa vez em que estive na casa do Mendonça.   Da conversa que tivemos.  Discutíamos sobre a vida intelectual,  a dedicação aos estudos.  Em certo momento ele,   porque eu dissera que estudava por conta própria em casa,  sem professores,  apenas com o auxílio de livros,  e recorrendo de vez em quando a companheiros de estudo mais adiantados,  me disse: 

“Confesso que não te entendo.  Estudando desse jeito não serás nada na vida.  Deverias entrar numa universidade.  É para isso que o estudo serve,  para se ter um lugar na sociedade.  Além do mais,  tu pecas contra a humildade julgando que podes ser autodidata.  Não me leves a mal,  é melhor para ti que entres para a universidade.  Interessas-te por qual das ciências?”

Pensei em falar para ele do estudo feito para conhecer a realidade,  e estar de bem com a realidade e que, se eu aprendia com autores de livros e companheiros de estudo,  eu não era um autodidata,  mas achei que eu não iria conseguir falar ou que ele não iria me entender.  Então fui mais simples.  Disse:  pelas artes.

“Queres ingressar no Instituto de Belas Artes?”,  ele me perguntou.

  Respondi a ele:  “Não,  não falo das Belas Artes,  me interesso em estudar as artes liberais.  Conhece-as? Gramática,  Retórica,  Lógica,  Aritmética,  Música,  Geometria, Astronomia?

Ele disse a mim que eu estava muito confuso e indeciso.  Que eu não podia ser professor de línguas,  político,  cientista,  professor de matemática,  músico,  e astrônomo,  tudo isso.  Que se houveram pessoas que foram tudo isso,  foram alguns poucos gênios e era falta de realismo meu ter essa pretensão.

 Mas uma vez quis dizer para ele que não era por uma finalidade profissional que eu estudava.  Não estudava em busca de um ofício,  de um papel social,  mas da realidade.  Em vão.  Meu interlocutor já havia adquirido essa terrível visão negativa da realidade que reduz o estudo a uma atividade social,  com uma função social.  Resolvi desistir da conversa.  Convidei ele para uma partida de xadrez.  Ele com as pretas, eu com as brancas.  Ele ganhou.  Raciocinava mais rápido e com mais segurança do que eu.  Ao final da partida pude sentir nele um ar de superioridade,  de alguém orgulhoso de sua lógica. 

     2.     Uma alma beata

O dia preferido de Marília era o Domingo.  Era o dia da Missa.  Nesse dia a sua religiosidade,  do qual ela se orgulhava, encontrava a sua razão de ser.  De fato,  era muito religiosa.  Sempre que podia ia a Missa.  Não só nos Domingos,  também em dias de semana.  Confessava e comungava com freqüência.    

No entanto,  Marília,  com toda essa fé, nunca rezava em casa.  “Para que?”, dizia ela.  “Sozinha aqui em casa não tenho amigos,  na Missa tenho.  Por que iria rezar sozinha aqui em casa,  sem minhas amigas do grupo de oração da paróquia? Pura perda de tempo.  Religião,  fé,  não é para gente mesmo,  é para o próximo.  Não foi o próprio Nosso Senhor quem disse:  “Renuncie a ti mesmo?”.  Acho sinceramente que sou uma santa."  

E esse pensamento de ser uma santa foi crescendo na cabeça de Marília.  Não notava ela que nunca houve um santo que não rezasse sozinho,  na mais pura solidão.  Mas que importa.  A sua fé,  que consistia em ir a igreja,  e rezar na igreja,  e somente na igreja,  lhe fazia feliz.  Não creio que o leitor irá duvidar da felicidade de nossa personagem.  Afinal,  ela havia adquirido já em vida a autoconsciência de ser uma alma beata.

 Por isso,  certa vez,  quando a alegria pela autoconsciência de sua santidade já havia crescido tanto na alma iluminada de Marília que ela não agüentava mais segurar dentro dela,   foi até sua paróquia,  dirigiu-se a sacristia e disse a Padre Bonifácio:  Padre,  sua benção, quero me confessar: 

Diga, minha filha,  o Senhor está pronto para te perdoar,  não importa o mal que tu tenhas feito.

Na verdade,  Padre eu não fiz mal nenhum.  Quando irás novamente para Roma conversar com o papa?

Por que,  minha filha,  estás me perguntando isso?

Sabe Padre,  eu vou a Missa sempre que posso,  confesso e comungo com freqüência.  Sou tão santa que não rezo em casa.  Porque rezar em casa é egoísmo e Nosso Senhor disse: “Renuncie a ti mesmo”.  Por isso gostaria que quando tu fores falar com o papa,  peças a ele para abrir o processo da minha beatificação.  Não creio ser necessário um milagre,  como de praxe.  Para que milagre se eu já me sinto uma santa?

O Padre Bonifácio,  perspicaz que era,  notou naquela aparente brincadeira a presença do demônio da soberba, e disse:  Sinto muito,  minha filha,  estás em pecado e não posso te dar absolvição.  Dissestes a verdade quando disse que não rezas em casa.  Deveria rezar.  E rezar muito.  Sugiro o Rosário todos os dias. 

 Dito isso, o Padre deu a Marília um exemplar do livro de São Luís Maria sobre o Santo Rosário.  Marília pegou o livro apenas por educação, e  foi embora braba,  chateada com o Padre.  Dizem,  foi o que me contaram,  que durante semanas lutou consigo mesmo para não ler o livro nem rezar o Rosário.  Afinal,  foi vencida.  Algumas semanas de oração em casa a levaram tomar a decisão de entrar para a Ordem Franciscana e tornar-se uma penitente.  Os que me contaram a estória dela dizem que não havia coisa que Irmã Marília mais gostava do que ser tratada como a pior das pecadoras.  Abençoava a todos que faziam isso.  Dizia serem seus reais benfeitores.  Bom,  pelo menos foi o que me contaram.  Eu não era nascido quando isso aconteceu e os que me contaram ouviram a estória da Madre Superior do Convento das Clarissas aqui de Santa Fé.  Madre Lúcia ela se chamava.  A pobre Marília foi recebida por ela.  Aceitou-a como penitente naquela santa casa.  Deus abençoe a Madre Lúcia.         


3. Vais acreditar em mim ou nos teus olhos?  (mini-conto) 

Certa vez houve um homem.  Esse homem tinha consciência de que na floresta haviam cobras venenosas. Certo dia foi à floresta passear com um menino de 10 anos,  que estava sob sua guarda.   O menino de 10 anos disse:  “tome cuidado que aqui tem cobras venenosas”.   Mas o homem pensou “esse menino só tem 10 anos,  não tem experiência de vida,  então não devo levar a sério o que ele diz”.   Entrou na floresta,  foi picado por uma cobra venenosa e morreu.    



4    O minuano

Capítulo 1

Um casarão numa estância em Bagé,  Província de São Pedro,  Brasil.   2 andares,  2 quartos.  1 para o dono do casarão,  um dos muitos estancieiros da Província,  de nome Pedro, e para sua esposa Adélia e outro para a filha, Clementina.  O ano era 1815.  Os estancieiros da Província de São Pedro estavam enfrentando as invasões dos bugres,  feroz tribo indígena.  Os peões que trabalhavam para o senhor Pedro na defesa da estância  mal podiam comer e beber.  O clima era de revolta.  A qualquer momento podia acontecer uma nova invasão.    

 

Capítulo 2

O índio Tarumã era um dos peões que trabalhavam para seu Pedro.  Era da tribo dos minuanos.  Exímio cavaleiro,  tinha um carinho especial por Clementina,  que,  no entanto,  o desprezava.  Aconteceu que Clementina  pediu permissão para seu pai para tomar banho de lagoa.  A distância da lagoa era suficiente para seu pai ficar preocupado.  Disse que só permitiria se junto com ela fosse um dos homens de sua confiança.  Não podia ninguém melhor que Tarumã,  pois sabia do carinho e cuidado que o índio minuano tinha para com sua filha.   E o pai, seu Pedro,  estava certo de ter essa precaução.  Pois os bugres,  que eram nômades,  haviam instalado uma aldeia perto da Lagoa,  que ficava num vale arborizado ,  entre quatro montes,  um à direita,  um à esquerda,  um ao sul e um ao norte,  todos eles  não muito grandes. 

 

Capítulo 3

  Quando chegaram ao lugar do banho,  Tarumã disse para Clementina que iria subir no monte que ficava à esquerda,   e olhar na direção oposta a direção da Lagoa.  Acreditava que era desse lado que estava a aldeia dos bugres.  Precisava vigiar. 

Capítulo 4

  Enquanto Tarumã vigiava no alto do monte olhando para a esquerda avistou,  no leste,  a aldeia bugre.  Enquanto isso, na estância, todos esperavam a volta deles.  Preocupados estavam com a demora.   Os peões vigiavam junto com seu Pedro,  dona Adélia rezava no quarto.   

Capítulo 5

2 índios bugres tinham feito a volta e escalavam um outro monte, que ficava ao sul do vale.  Estavam inspecionando o território para saber a melhor maneira de fazer a invasão.  Viram Clementina a tomar banho.   Ela os percebeu e quando viu que iriam atacá-la gritou por socorro.  Imediatamente Tarumã ouviu e com o arco já preparado disparou uma flecha.  Depois outra.  A moça perplexa e trêmula assistia tudo sem entender nada do que estava acontecendo.   Tarumã desceu do monte e disse:  vamos daqui,  minha irmã,  teu pai e tua mãe devem estar preocupados.

Capítulo 6

De fato,  estavam preocupados,  e a essa preocupação se somava a revolta dos peões.  Mas algo bom estava acontecendo.  Finalmente Clementina havia reconhecido o quanto havia sido ingrata com seu amigo índio.  Agradeceu-lhe o cuidado e a proteção.  Quando chegaram em casa, seu Pedro e dona Adélia abraçaram a filha e Clementina contou o que Tarumã havia feito por ela.  O estancieiro disse que gostaria que o índio se casasse com sua filha,  pois não poderia encontrar melhor protetor.  E ela,  que antes o desprezava,   com alegria o aceitou como companheiro.

Capítulo 7    

Enquanto comemoravam o noivado, ouviu-se gritos de guerra.  Eram terríveis bugres.  Vendo que eram muitos e que seria impossível resistir a eles, seu Pedro disse para Tarumã:  “foge com minha filha e minha esposa.  Eu e meus peões ficaremos aqui para morrer se for necessário.”  E assim se fez.  Tarumã,   decidiu ir com as duas para o leste,  na direção do Jardim do Éden,  pois,  conhecedor da região como era,   sabia que havia uma redução jesuítica sobrevivente.  Os índios atacaram e apesar de lutarem com bravura seu Pedro e seus peões não puderam resistir ao ataque:  Morreram todos.

Capítulo 8

Enquanto a tragédia ocorria,  lá iam Dona Adélia e sua filha,  para uma nova vida,  acompanhadas do amigo índio.  Mãe e filha iam num cavalo,  Tarumã em outro.  No caminho Dona Adélia teve um pressentimento.  Sentiu-se mal.  Tiveram que parar a viagem.  Foram-lhe prestados socorros.  Porém ela não resistiu.  Suas últimas palavras foram:  “filha,  lembra do pedido do teu pai”.   Assim morreu e foi enterrada num lugar que até hoje permanece desconhecido por aqueles que me contaram essa estória.  Sem a mãe,  Clementina partiu com seu amigo para a redução.    Era lá,  na companhia do seu fiel amigo e assistida pelos padres e irmãos da Companhia de Jesus,  que viveria o resto dos seus dias.     

     


          5.    Fábula da toupeira e do gavião 




Personagens 


  • a toupeira

  • sua mãe

  • seu pai

  • o gavião-carijó 

              Elf,  um elfo 

  • Quíron,  um centauro 

  • Fada Viviane 

  • outra fada 



I   


Me contaram que certa vez houve um casal que criava uma toupeira.   Certo dia estavam em sua casa,   alimentando sua toupeira com uma deliciosa e nutritiva refeição feita de algumas minhocas,  nozes e amêndoas.   Em certo momento esse casal vendo que a toupeira queria sair de casa para conhecer as terras onde viviam e julgando ser isso perigoso,  disseram a ela:   “se queres isso,  faça,  mas tome muito cuidado,  porque um monstro horrível,   o gavião-carijó,  devorador de toupeiras,   está por aí.   Ele tem asas e voa no céu procurando alguma toupeira desatenta para devorar.   Tome cuidado.”  



II  


A toupeira ouviu essas palavras de seus pais mas não as levou a sério.   Pensava ela “nunca ouvi falar que existe gavião-carijó,  não sei o que é,  não conheço,  portanto não existe,   não tenho com o que me preocupar”.    




III  


E assim foi passear a toupeira,   movimentando alegremente e despreocupadamente seu corpo cilíndrico,  de vez em quando parando para descansar,   para coçar-se,   para ver se encontrava algo para comer.   Chegou a noite e ainda estava no campo,  fora de casa.  Seus pais começaram a ficar preocupados.   Saíram de casa e olharam para as várias direções.   A oeste havia uma extensa área de campo na qual,  no mais extremo,   habitavam os temíveis gaviões-carijós.   A leste outra área de campo e,  no mais extremo,  uma floresta onde também habitavam gaviões, mas de uma outra espécie.  E não apenas gaviões,  mas outros estranhos seres dos quais não cabe falar agora.  No centro-sul uma cadeia de montanhas separava a estância da zona urbana do município de Toupeiras.   No centro-norte outra cadeia de montanhas separava a estância da zona urbana do município de Serpentes.    A zona rural era comum aos 2 municípios.  O dono da estância era um senhor feudal.   Era muito rico,   suas terras eram muito férteis,   e com muitos rebanhos,  pois podia alimentar sua família,  criados,  e fornecer alimento para duas cidades que delas dependiam.        


IV  

A toupeirinha estava indo para o oeste.   Me contaram,  mas não me disseram porquê,  que seus pais  pensaram que ele tinha ido para a floresta ao leste.   Por isso para lá foram.   Chegando lá encontraram Elf,  um ex-gavião da floresta que fora educado e transformado em elfo pela fada Viviane,  mais conhecida como a Dama do Lago,  que em tempo idos viajara para a Grécia e se casara com o centauro Quíron,  o qual ensinara a Elf as belas-artes e a arte da medicina.       


Conversavam sobre os velhos tempos.  Os eventos aqui narrados se passam muito tempo depois daqueles narrados por aquele grande historiador e cronista que foi Tolkien.   Aliás,  Elf,  o elfo,   conhecera pessoalmente Legolas,   Galadriel,  Arwen  como também a Frodo,   Sam,   Gandalf,   etc.   Pois os elfos vivem muito tempo e já fazia muitas gerações que ele havia sido transformado em elfo pela fada.    Conversavam então sobre os grandes acontecimentos dos tempos passados quando foram surpreendidos com a chegada dos pais da toupeira perguntando se tinham visto ela.         


Disseram que não.   A toupeira estava indo para o oeste.   No lugar onde ela estava ainda não havia gaviões.   O espírito guardião dela avisou-lhe para ela não ir mais para o oeste.  Mas ela não ouviu.   Foi mais longe ainda na direção do Ocidente até chegar no lugar onde acima,  no céu,   havia um gavião-carijó que olhava para baixo esperando encontrar seu alimento.  Ele olhou para baixo e viu a toupeira.   Nesse momento começou a descer.   Quando já estava bem perto a toupeira o viu.   Então algo extraordinário aconteceu.   Uma fada,  que estava a serviço do espírito guardião da toupeira,   transformou-na em um ser humano de forma feminina,  em um ser racional,  por isso mesmo,  em alguém dotado do temor do Senhor,  alguém que sabe que existem muito mais coisas do que aquelas de que tem conhecimento.    E também o gavião-carijó foi transformado pela fada.  Transformado em um ser racional de forma masculina.   E a ex-toupeira agora mulher e o ex-gavião agora homem se casaram.   Foram fazer um piquenique na floresta acompanhados de seus espíritos guardiões e de suas fadas.   Lá estavam Elf,  Quiron e a fada Viviane.  Permaneceram por muito tempo em alegre conversação. 



6.  Terra Oca 


Pedro não era nem muito alto,  nem muito baixo.  Nem muito gordo,  nem muito magro.  Era um muito habilidoso

escultor,  magistral mesmo.  Aconteceu que a estátua da Independência da cidade de Terra Oca foi destruída e

era necessário o trabalho de um excelente escultor para fazer uma nova estátua.  Então Pedro foi até o prefeito da

cidade e se ofereceu para esculpir a nova estátua da Independência.  O prefeito olhou para Pedro,  viu que não era

nem muito alto, nem muito baixo,  nem muito gordo,  nem muito magro e reconheceu nisso um claríssimo sinal

de mediocridade.  Agradeceu e demitiu o candidato.  Não encontraram mais ninguém para o trabalho.  Até hoje

a cidade de Terra Oca está sem sua veneranda estátua.  



7. Idolatria incendiária:  Um cidade em chamas 

 

Numa era muito remota houve uma cidade.  Essa cidade tinha seus deuses.  Os principais eram a deusa Aparência

e seu filho Julgamento pela Aparência.  Aconteceu que certo dia alguém pôs fogo na cidade,  e o fogo começou a

se alastrar.  Apareceu alguém dizendo que era bombeiro,  que entendia do problema,  que podia resolver a situação. 

Ninguém acreditou nele.  Riram dele porque não lhes pareceu ter cara de bombeiro.  A cidade foi totalmente

destruída pelo fogo.  Tudo foi queimado.  Isso aconteceu há muito tempo atrás,  antes do Grande Julgamento, 

no qual essa cidade foi condenada. 


 

8. A invenção da roda 


Certo dia,   um homem viajava com seu cavalo numa estrada da Suméria.  A estrada era toda de areia.  O dia era

um dia quente de sol.  Cavalgava lentamente,  parando de vez em quando para tomar sua água e comer um pouco

de pão.    Ia de Lagash para Ur.  A oeste estava a terra de Canaã,  a leste o Elam,  hoje,  sudoeste do Irã,  a norte

os Montes Zagros,  ao sul a Arábia,   ao noroeste o Eufrates,  ao nordeste o Tigre.   No caminho teve uma ideia. 

A ideia de uma invenção revolucionária.  Chamou-lha, em sua língua sumeriana,  de carro com roda.  A ideia

lhe pareceu tão boa que julgou dever comunicar ao rei de Ur o achado.   Depois de alguns dias de viagem chegou

à cidade.   Era uma megalópole de 20 mil habitantes na qual se destacava o grande zigurate e o palácio feitos de

pedra que contrastavam com as casinhas feitas de barro e betume.  Logo que nosso viajante chegou dirigiu-se ao

palácio e,  sendo recebido pelos guardas palacianos,  pediu permissão para ter uma audiência com o rei da

cidade-estado.  Fizeram-lhe entrar.   Comunicou sua ideia ao rei que disse que iria consultar os sábios do reino. 

Houve uma reunião.  Foi concluído na reunião que a proposta do estrangeiro era um intolerável desrespeito à

venerável tradição de só andar montado ou a pé.   Determinou-se que seria dado ao viajante o castigo reservado

aos transgressores das veneráveis tradições da Suméria.  E é por isso que  até hoje os sumérios não conhecem a

invenção da roda e só andam montados ou a pé.  



9. A reunião 


Houve uma reunião.   Fabrício apresentou uma ideia que nunca ninguém tinha pensado.  Diferente de tudo o que

haviam pensado.  A ideia era genial e resolvia o problema em pauta. Porque era diferente de tudo o que haviam

pensado julgaram que não era sério.  Julgaram que ele estava de brincadeira e não tinha seriedade para trabalhar

naquela empresa.  Demitiram-no.  Ficou desempregado.  Não se sabe que fim levou.  


10. Civilização perdida 


Havia uma cidade.

Muitas gerações haviam vivido nessa cidade

Quando uma nova geração ainda era muito pequena,

e não havia aprendido nada sobre o passado,

uma catástrofe aconteceu: 

A geração anterior desapareceu 

De modo que a nova geração nada aprendeu 

do passado com seus pais  


A antiga geração havia deixado

lembranças das eras passadas da cidade

Essas lembranças estavam escondidas.  

Tão bem escondidas que a nova geração 

não tomou conhecimento delas.

E não tomou conhecimento do passado. 



Porém a nova geração cresceu,

e gerou uma nova geração

E sabe-se lá como e porquê,

essa nova geração encontrou as lembranças 

do passado,  dessa cidade de antiguidade incalculável


A ex-nova geração agora já velha quando ouviu seus filhos,

contarem o que haviam descoberto,  julgou que eram novidades,

invenções de subversivos,   de revoltados,  que não aceitam as coisas

como sempre foram.


Porque o passado foi esquecido,  não foi superado.          

Quiseram superar o passado pelo esquecimento

mas o passado não é superado pelo esquecimento



 A tragédia de Clermont:  um conto mitológico baseado em fatos reais  


Aviso:  Esse não é um trabalho de historiador apesar de ser baseado em pesquisa historiográfica (a espécie de pesquisa que um historiador faz para escrever uma obra de historiografia).  O local onde os eventos se passam é uma cidade real da França,  2 dos personagens são indivíduos historicamente identificáveis e os outros são tipos também historicamente identificáveis. Porém nesse singelo conto a cidade é um símbolo e os personagens também.  Não são alegorias (representações de conceitos ou idéias), mas símbolos, de modo que o texto será mau interpretado se veres nas palavras conceitos. Chamei-o de conto (e não de narrativa) porque o ritmo é o ritmo do pretérito imperfeito.   E chamei de mitológico porque conta,  na linguagem do “realismo fantástico”,  a origem do que foi e é a situação de muitas comunidades humanas   


Nota:  Para escrever esse conto usei duas fontes (talvez) primárias que encontrei nesse sítio:  https://classes.bnf.fr/ema/anthologie/ville/2.htm). A confirmação da autenticidade do conteúdo dos 2 textos exigiria um trabalho de crítica externa do documento que é algo que está fora da minha área de competência.  


Começa o conto 


I   


O ano era o ano da graça do Senhor de 1198.  Os habitantes da cidade francesa de Clermont haviam solicitado do bispo uma carta de franquia para a cidade.  A resposta dada pelo prelado foi:       


Eu, Robert, pela graça de Deus, Bispo de Clermont, prometo de boa fé a todos os homens e mulheres de Clermont presentes e futuros que:


1) Não confiscarei as suas pessoas, nem as suas casas, nem os seus bens, nem permitirei que isso seja feito, exceto por motivo de homicídio, adultério ou homicídio, em que o homem ou a mulher esteja envolvido. Para os ladrões, seguiremos os “bons costumes” de Montferrand.


2) Se uma “reivindicação” for feita diante de nós vinda de um homem ou de uma mulher, ele primeiro nos dará títulos e testemunhas, se puder, ou caso contrário o homem ou a mulher jurará sobre os bens que terá na cidade.

3) Se eu ou um homem da minha casa tivermos briga com alguém, se ele não quiser dar segurança, será julgado em sua propriedade.

4) Prometo que todos os bens que serão mantidos em segurança em Clermont em tempos de paz ou em tempos de guerra não correrão nenhum perigo por nós ou pelos nossos homens, não serão apreendidos nem por quem os detém, nem por aquele com quem serão depositados, e quem os colocou lá, poderá retirá-los quando quiser.

5) Nem eu nem ninguém daremos salvo-conduto, na cidade ou vila, a qualquer homem que tenha roubado ou atacado um homem de Clermont, exceto com o consentimento da pessoa a quem ele foi prejudicado.

6) Finalmente, prometo a todos os presentes e futuros homens e mulheres de Clermont que manterei os “bons costumes” que os meus antepassados ​​herdaram dos seus antepassados; e se eu mesmo ou meus antecessores tiver alguma briga contra um homem ou uma mulher de Clermont, perdôo a todos a partir de hoje.

7) Prometo guardar todas essas cláusulas de boa fé e juro pelos santos evangelhos e nossos bayles também juram.

8)  E que eles me perdoem de bom coração se algum dia eu os falhei na fé, por motivos de terra ou dívidas.

9) E para que estas cláusulas sejam firmes e seguras, mandamos selar esta carta com o nosso selo e o do capítulo de Clermont.

Isto foi feito no ano da encarnação de Nosso Senhor 1198, no mês de maio, na oitava da Ascensão. 


II


Faltava, porém,  que o senhor local concordasse com a decisão do bispo.  Um ano depois,  o conde de Auvergne,  tendo conversado com pessoas que se diziam representantes dos cidadãos de Clermont,  também concedeu uma carta de autonomia a mesma cidade: 


“Que todos os presentes e futuros saibam que nós, cidadãos de Clermont, fizemos um acordo com o Conde Guy, segundo o qual ele manterá e prestará juramento pelos direitos e costumes que se seguem.

1) O conde não confiscará as nossas pessoas, nem as nossas casas, nem os nossos bens, nem permitirá que isso seja feito, exceto por motivo de homicídio, adultério ou homicídio. Para os ladrões, seguiremos os “bons costumes” de Montferrand.

2) Se a "reivindicação" (clamor) for feita antes da contagem, ele primeiro dará fianças e fiadores, se o culpado puder fazê-lo, ou caso contrário ele prestará juramento e depois de ter jurado não será obrigado a dar fianças e fiduciários, e será julgado pelos bens que possui na cidade.

3) Se o conde ou um homem de sua casa brigar com alguém, se não quiser dar fiança ou fiduciários, será julgado por seus bens, que, no entanto, não podem ser tomados ou apreendidos antes que a causa esteja totalmente encerrada.

4) Todos os bens que serão mantidos em segurança em Clermont em tempo de paz ou em tempo de guerra não correrão qualquer perigo por parte do conde ou dos seus homens, não serão apreendidos nem por quem os guardará, nem por aquele com quem serão depositados, e quem os colocou lá poderá retirá-los quando quiser.

5) Nem o conde nem qualquer outra pessoa em seu nome deve dar salvo-conduto para a cidade ou vila a qualquer homem que tenha roubado ou atacado um homem de Clermont, exceto com o consentimento da pessoa a quem foi prejudicado.

6) Se o conde tiver alguma disputa por si mesmo ou por parte de seus antecessores em relação a um homem ou mulher de Clermont, ele a esqueceu desde o dia deste ato.

 7) Se um homem ou mulher quiser sair de Clermont, deverá levar seus pertences no prazo de 40 dias. O conde fornecer-lhe-á salvo-conduto sempre que possível e garantirá que a paz reine sobre as suas casas e propriedades após a sua partida.

8) Ninguém de Clermont dará o pedágio ou o preço do salvo-conduto, mas o conde o fornecerá sempre que possível.

9) Se um homem ou uma mulher apresentar queixa contra outro homem ou mulher, pela denúncia deverá pagar 3 cêntimos; se for sangue, feito com espada ou de outra forma, o condenado será obrigado a pagar 60 soldos; e o julgamento será assim encerrado sem custos adicionais. Ninguém pertencente à família do conde poderá testemunhar contra um residente de Clermont

10) Os talhantes e padeiros do conde devem conceder crédito durante três meses, aceitando os penhores e fiadores que lhes sejam prestados, podendo no final dos três meses vender os bens depositados em penhor.

11) O conde prometeu manter todas essas cláusulas de boa fé e jurou sobre os santos evangelhos e fez com que os bayles que instalou em Clermont jurassem da mesma forma.

12) Ele mandou selar esta carta alfandegária com seu selo e o rei da França também prometeu selá-la.

Nós, Conde Guy, iremos protegê-lo contra todos os homens, exceto a lei e a fé dada ao Rei da França, porque ele mesmo prometeu nos proteger e defender contra todos, salva a fé do Rei da França.

Isto foi feito no ano da encarnação de Nosso Senhor 1199, no mês de setembro, durante o reinado de Filipe.


III


E assim a cidade de Clermont conquistou sua autonomia e sua independência em política econômica.  Tornou-se uma comuna.   




IV


Essa conquista foi planejada por pessoas que se diziam representantes dos cidadãos e que queriam que o burgo se tornasse uma comuna.  Por burgueses comunistas,  no sentido primeiro da palavra.  Porém,  depois que a cidade conquistou essa conquista começaram a aparecer claramente problemas entre seus habitantes.  Haviam ideólogos naquela época que,  partindo de uma má interpretação dos Evangelhos,  convenciam oficiais (operários) de guildas ou corporações de ofício  à desobediência com relação aos mestres, a revolta.  São os precursores da moderna teologia marxista da libertação.  A comunidade se desmembrou.  Depois,  muito tempo depois,  os burgueses comunistas que haviam feito um acordo com a Igreja através do bispo traíram a Igreja.  Separaram a comuna da Igreja.  Separada a cidade de sua Mãe e Mestra  no lugar do espírito de colaboração que leva o ser humano a ajudar o próximo em seu ofício,  cada um colaborando para que o outro seja bem-sucedido em seu trabalho,  para o bem comum,  surgiu o espírito de concorrência,  surgiu o capitalismo selvagem.    



Com o tempo já ninguém queria fazer negócio com ninguém.  Ninguém confiava em ninguém.   Haviam os administradores da cidade,  que guardavam num banco o tesouro público.  Passado muito tempo, quando ninguém mais confiava em ninguém, quando ninguém queria fazer negócio com ninguém,  ninguém queria comprar os produtos dos artesãos e dos comerciantes e dos mercadores esses se viram obrigados a pedir dinheiro do tesouro público,  em troca de trabalhar para a burguesia comunista. A mesma burguesia comunista que,  se dizendo representante dos cidadãos de Clermont, separou a cidade da Igreja sua Mãe e Mestra e desmembrou tal comunidade,  levando-a a seu fim trágico.  


  


 






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