Curso de pesquisa em história

Apresentação do curso: 

-   Nesse curso você irá aprenderá os passos da pesquisa em história.

-  o primeiro passo é determinar o que você quer saber.  E porque você quer saber.

-   o segundo é saber encontrar documentação.  O historiador trabalha com documentos que são fontes de conhecimento histórico.  Por documento entendo qualquer coisa que possa ser fonte:  textos de todos os tipos,  imagens,  gravações,   informantes. 

O terceiro é o da crítica interna.  Nele aprendemos a extrair de um documento o que esse documento diz.

O quarto é o da crítica externa.  Nele aprendemos a extrair de um documento do que esse documento fala e também a datar o documento.   Aqui será necessário o estudo de outras ciências para que o aluno aprenda a compreender.  Ele irá aprender a relação da história com a geografia,  a psicologia,  a antropologia, a sociologia e outras ciências.    

O quinto é pôr em ordem cronológica os documentos encontrados

O sexto e último é da elaboração do texto,  que pode ser em forma narrativa ou em forma expositiva

Na próxima aula iremos estudar o 1º desses 6 passos. 

 

1º módulo:  Introdução

 Aula única:   A determinação do objeto e de sua importância

A importância da pesquisa não está na novidade do que se quer saber,  mas em mostrar como um processo histórico já terminado ou ainda em curso transformou ou ainda transforma vidas humanas,  como essas vidas foram afetadas ou ainda estão sendo afetadas se o objeto for um processo histórico ainda ocorrendo.  É também importante saber,  olhando para um processo histórico ainda existente,  para onde estamos indo.   Um historiador não é alguém que vive no passado e desconhece o presente.  Um historiador é alguém que percebe causas e conseqüências e percebe que causas que tiveram certas conseqüências podem retornar e ter as mesmas conseqüências.  Por exemplo,  hoje em dia há pessoas que embora tenham condições de contratar outras para serviços,  não têm condições de pagar em dinheiro.  No passado,  na Europa Ocidental,  isso foi uma das causas do surgimento do que os livros de história chamam de feudalismo.  Dada a situação atual o feudalismo pode ressurgir,  não igual a como foi no passado, mas de outra forma.  Ou então,  se as causas que levaram um país a aceitar uma forma e regime de governo retornarem,  no mesmo e em outro,  pode-se prever que a conseqüência será a mesma. 

 

 

2ª módulo: A descoberta da documentação

1ª aula:  O ponto de partida e as periodizações da História:  Os grandes períodos:

Quanto a descoberta das fontes,  é melhor partir de um evento,  de um fato,  e não de uma conjuntura ou de uma estrutura.  E é necessário colocar o fato em um período.   Se você quer saber,  por exemplo,  algo sobre as ordens religiosas no Brasil Colonial não irá encontrar fonte em arquivo com documentos da Pré-História,  da Antiguidade e da Idade Média.  Só da Idade Moderna e,  claro, depois de 1500. É necessário também saber dividir a História em períodos grandes,  médios e pequenos.  A periodização para períodos grandes, médios e pequenos que  proponho é a seguinte: 

Para a Pré-História:

1ª era:  Do surgimento do Ser Humano,  Homem e Mulher,  até o surgimento da economia de caça,  após a expulsão do ser humano do Paraíso. 

2a era:  Do surgimento da economia de caça até o surgimento da economia de agricultura e pecuária para sustento (cerca de 10.000 a.C)

3ª era:  Do surgimento da economia de agricultura e pecuária para sustento até o surgimento do comércio e das cidades perto de 4000 a.C. 

Para a Antiguidade: 

 1ª era Do surgimento do comércio e das cidades a conquista do Mediterrâneo pelos romanos

Nota:  Essa era pode ser subdividida em fases como:

1ª fase: Das primeiras cidades (4000 a.C) até as Guerras Médicas (499-449 a.C)

2ª fase:  Das Guerras Médicas até surgimento da cultura helenística:   449 a.C- século IV a.C  

3ª fase:  Do surgimento da cultura helenística até a conquista do Mediterrâneo pelos romanos.  Século IV a.C a 146 a.C. 

2ª era:  Da conquista do Mediterrâneo pelos romanos até a divisão do Império Romano em Império do Ocidente e Império do Oriente:  146 a.C-395 d.C

Nota:  Essa era pode ser subdivida assim:

1ª fase: Da conquista do Mediterrâneo pelos romanos até o nascimento,  vida,  morte e ressurreição de Cristo,  e as conseqüências econômicas desses eventos:  146 a.C até próximo do ano 33 d.C.   

2ª fase: Das conseqüências econômicas do surgimento do cristianismo até o Édito do Imperador Teodósio que tornou o cristianismo-católico a religião oficial do Império Romano:  33 d.C até 27 de fevereiro de 380

3 fase ª Do Edito de Tessalônica até a divisão do Império.  Anos:  380-395  

3ª era:  Da divisão do do Império Romano até a batalha de Poitiers:  Anos:  395-732  

Nota:  Essa era da Antiguidade pode ser subdividida em:

1ª fase: Da divisão do Império Romano até a deposição do último imperador romano do Ocidente.  Anos:  395-476

2ª fase:  Da deposição de Rômulo Augusto até o surgimento do islamismo como religião: 476 a + ou – 610  

3ª fase: Do surgimento do islamismo como religião até a batalha de Poitiers:  610-732

 

Para a Idade Media:

1ª era: Da batalha de Poitiers até o Grande Cisma do Oriente

Nota:  Essa era pode ser subdivida em:

1ª fase: Da batalha de Poitiers até o início das invasões vikings:  732-793

2ª fase: Do início dessas invasões até a Reforma de Cluny no final do século X:  793-década de 980  

3ª fase Da Reforma de Cluny  até o Grande Cisma do Oriente: Aproximadamente 980-1054

2ª era:  Do Cisma do Oriente até o comércio internacional do século XIV

E isso pode ser subdivido em:

1ª fase: Do Cisma do Oriente até a fundação da faculdade de Direito da Universidade de Bolonha (primeira faculdade de Direito da Europa Ocidental):  1054-1088

2ª fase:  Da fundação da universidade de Bolonha até a 1a Cruzada:  1088-1099

3ª fase:  Do fim da 1a cruzada até o comércio internacional do século 14:  1099-século XIV 

Para a Idade Pré-Moderna:

1ª era: Do comércio internacional do século XIV até a chegada de Colombo a América em 1492.   Anos de 1301 a 1492

E isso pode ser subdivido em:

1ª fase:  Do comércio internacional do século XIV até o Cisma do Ocidente iniciado em 1378

2ª fase:   Do Cisma do Ocidente até o início (na década de 1440) do esforço do Estado Português para começar as grandes navegações:  1378-década de 1440  

3ª fase:  Da fundação do que ficou conhecido como “Escola de Sagres” até a chegada de Colombo na América: 1440-1492 

2ª era: Da chegada de Colombo a América até o início das bandeiras.  Anos:  1492-1554. 

E isso pode ser subdividido em:

1ª fase:  Da chegada de Colombo a América até a fundação da primeira capitania na América Portuguesa:  1492-1504    

2ª fase:  Da fundação das capitanias na América a partir de 1504 (Capitania de Fernando de Noronha) até a chegada de navegadores portugueses na Oceania,  ainda na primeira metade do século XVI:  1504-1521

   3ª fase:  Da chegada de Portugal a Oceania até o início da ação dos bandeirantes na região do atual Estado de São Paulo,  a partir de 1554: 1521-1554

3ª era:  Do início das bandeiras até o fim da União Ibérica entre Portugal e Espanha. 

E isso pode ser subdividido em:

1ª fase:  Do início das bandeiras até a fundação da 1ª redução jesuítica na América do Sul,  no Peru, em 1575:  1554-1575

2ª fase:  Da fundação dessa 1ª redução jesuítica até a União Ibérica terminada em 1640: 1575-1640

Para a Idade Moderna: 

1ª era:  Da união ibérica até a primeira revolução industrial,  mais ou menos a partir de 1750:  1640-1740 + ou -

E isso pode ser subdividido em:

1ª fase: Da União Ibérica até o estabelecimento da política mercantilista e protecionista pelo Conde da Ericeira (Dom Luís de Meneses) em 1677:  1640-1677

2ª fase:  Do estabelecimento dessa política econômica até o Tratado de Methuen,  de Portugal com a Inglaterra,  em 1703:  década de 1680-1703

3ª fase:  Do estabelecimento desse tratado de cooperação econômica até a 1ª revolução industrial: 1703-1750

2ª era:  Da primeira revolução industrial até Revolução Francesa de 1789

E isso pode ser dividido em:

1ª fase: Da 1ª revolução industrial até a supressão da Ordem Jesuítica em 1767: 1750-1767

 2ª fase:  Da supressão dos jesuítas até a Revolução Francesa de 1789: 1767-1789  

 

3ª era: Da Revolução de 1789  até a emancipação política da burguesia em 1830

Que pode ser dividida em

1ª fase:  Da revolução de 1789 até a derrota de Napoleão Bonaparte na Batalha de Waterloo em 18 de junho de 1815: 1789-1815

2ª fase:  Da derrota final de Napoleão até a Constituição Brasileira de 1824: 1815-1824

3ª fase Da Constituição Brasileira de 1824 até a Revolução Francesa de 1830: 1824-1830   

Para a Idade Pós-Moderna

1ª era: Da emancipação política da burguesia em 1830 até a 2ª revolução industrial a partir de 1870:  1830-1870

Que pode ser subdivido em:

1ª fase:   Da revolução de 1830 até a Revolução Francesa de 1848: 1838-1848

2ª fase:  Da revolução francesa de 1848 até o início da 2ª revolução industrial:  1848-1870 

  era:  Da 2ª revolução industrial até a invenção do telefone e da iluminação por energia elétrica,  entre o final da década de 1870 e o início da década de 1880:  1870-década de 1880

3ª era: Da invenção creditada a Thomas Edison até a Grande Crise Econômica de 1929: 1880-1929

Que pode ser subdividida em:

1ª fase:  Da invenção de Thomas Edison  até a invenção do rádio e do cinema na década de 1890:  década de 1880-década de 1890   

2ª fase:  Da invenção do rádio e do cinema até a 1 Guerra Mundial: década de 1890-1914

3ª fase:  Da 1ª Guerra Mundial até a Crise de 1929:  1914-1929

Para a Idade Contemporânea:

1ª era: Da Grande Crise de 1929 até o início da aplicação da Doutrina Truman em 1947:  1929-1947

Que pode ser subdividida em:

1ª fase: Da crise de 1929 até a entrada dos Estados Unidos na 2ª Guerra Mundial em 1941: 1929-1941

2ª fase: Da entrada dos Estados Unidos na 2ª Guerra até o início da aplicação da Doutrina Truman em 1947 e o início oficial da Guerra Fria:  1941-1947

2ª era:  Do início da aplicação da Doutrina Truman até a Revolução Iraniana de 1979

Que pode ser subdividida em

1ª fase:   Da Doutrina Truman até a transferência da capital do Brasil do Rio de Janeiro para Brasília em 1960:  1947-1960

2ª fase:   Do estabelecimento de Brasília como nova capital do Brasil até o inicio da ditadura militar em 1964:  1960-1964

3ª fase:   Da ditadura iniciada no Brasil em 1964 até a revolução na Pérsia em 1979: 1964-1979

 

3ª era: Da Revolução Iraniana de 1979 até as atuais políticas protecionistas do presidente norte-americano Donald Trump:  1979 até hoje  

 Que pode ser subdividida em:

1ª fase: Da revolução de 1979 até o fim legal da União Soviética em 1991: 1979-1991

2ª fase: Do fim legal da URSS até o atentado de 11 de setembro de 2001:  1991 até 11 de setembro de 2001

3ª fase:  Do atentado de 2001 até as atuais políticas protecionistas do presidente Donald Trump:  Do 11 de setembro de 2001 até hoje

 

1º módulo:  2ª aula:  Sobre o modo de encontrar a documentação desejada:  Quando você quer verificar se algo existiu ou aconteceu

-   Em primeiro lugar é necessário saber que há lugares que guardam testemunhos que são fontes para o historiador.

-  esses lugares são arquivos públicos e privados,  bibliotecas e museus. 

-   para encontrar a informação desejada é necessário saber se o objeto buscado será encontrado em arquivo público,  em arquivo privado,  em biblioteca ou em museu. 

Assim,   por exemplo,  as Constituições do Brasil são encontradas em 3 lugares de memória que são:  o arquivo da Câmara dos Deputados em Brasília e nos 3 endereços do Arquivo Nacional;  em Brasília,  na cidade do Rio de Janeiro e em Porto Alegre.  Todos esses são arquivos públicos.  Constituições de países são encontradas em arquivos públicos.  E documentos governamentais em geral

E se você quer saber uma data de nascimento,  de óbito ou matrimônio  você terá que pesquisar em cartórios,  que também são arquivos públicos  

Mas,  se você quer saber a data do batismo de alguém  ou se essa pessoa foi batizada,  terá que encontrá-la em um arquivo privado,  que é o arquivo da igreja onde a pessoa foi ou teria sido batizada,  de acordo com seus informantes

Para pesquisar em arquivo (e também em museu) é necessário já ter alguma informação e que seja testável. Pois a História é uma Ciência.  Essa informação pode ser dada por via oral ou via textual.  Pode ser encontrada em entrevista, em pesquisas em bibliotecas ou mesmo por ouvir uma pessoa.  Depois que você recebeu a informação do entrevistado ou do autor do livro você irá a um arquivo ou museu,  público ou privado,  para testar a veracidade da informação.  Para conferir a veracidade ou falta de veracidade da informação será necessário saber fazer a crítica interna e a crítica externa do documento.  Disso vamos tratar no 3º módulo do curso.

 Por último,  há o caso dos museus,  das vidiotecas, audiotecas e pinacotecas.   Alguns são privados e outros são públicos.   Em alguns museus encontramos obras de arte ou artesanato,  em outros encontramos textos,  livros,  jornais,  revistas.

Exemplo: 

Suponhamos que você queira encontrar a Constituição Brasileira de 1824.     Bom,  você já sabe que as Constituições do Brasil são encontráveis nos endereços do Arquivo Nacional e no arquivo da Câmara dos Deputados.  Agora você precisa saber em qual desses 4 lugares de memória está preservada a Constituição de 1824.   Procurando em um desses 4 você descobrirá que essa Constituição se encontra no endereço do Arquivo Nacional na cidade do Rio Janeiro.  Se você for até esse endereço,  você deverá dizer:  “Quero o manuscrito original da Constituição de 1824”. 

 Se você não puder ir até o Rio,  você pode usar a Internet e aí digitar no Google ou no site de busca que você usa “Constituição de 1824.  Manuscrito”.  Você encontrará o texto nessa página:      https://www.gov.br/arquivonacional/pt-br/sites_eventos/sites-tematicos-1/brasil-oitocentista/especial-bicentenario-da-independencia/constitucionalismo-e-a-constituicao-de-1824/BR_RJANRIO_DK_C24_CST_0001_d0001de0001compactado.pdf/view ,  bastando clicar no link.

1º módulo:  3ª aula:  Sobre o modo de encontrar a documentação desejada:  Quando você quer saber quando algo aconteceu: Datas com registro de acordo com o calendário cristão  

Pode ser que seu objetivo seja precisar uma data. Nessa 3ª aula vamos tratar apenas de datas registradas de acordo com o calendário cristão que divide a História em antes de Cristo (a.C) e depois de Cristo (d.C).

  O primeiro passo é encaixar o fato ou evento em um dos períodos maiores,  médios e menores conforme a divisão proposta na 2ª aula desse 2º módulo. 

Se quer saber,  por exemplo,  qual data em que o imperador Constantino promulgou o Édito de Milão, que concedeu liberdade de culto religioso aos cristãos no Império Romano.   É necessário ter a informação prévia,  por leitura de textos ou memórias de aulas,  que isso aconteceu no ano de 313 depois de Cristo (d.C).  Então você vai procurar na tabela em que período se encaixa o ano de 311 d.C.  Você verá que se encaixa no período entre 33 d.C até 380 d.C,   que pertence a 2ª era da Antiguidade,  na divisão proposta.  Então você vai procurar em algum local de memória que guarde o registro de mês e dia.   Esse lugar pode ser um arquivo,  um museu ou uma biblioteca que guarde testemunhos da Antiguidade (período entre 4000 a.C-732 d.C).  O testemunho tem que ser de um contemporâneo da promulgação desse Édito.   Qualquer que seja o período o testemunho,  para a verificação,  deve ser de um contemporânea do fato ou do acontecimento.  

Sabendo que o testemunho deve ser de um contemporâneo, você terá agora que pesquisar sobre os lugares de memória dos romanos antigos e cristãos. Onde e como eles preservavam o conhecimento dos eventos e feitos.   Encontrará então textos escritores por historiadores romanos e cristãos da Antiguidade.  Se fores perseverante na busca encontrará dois livros que se chamam “História eclesiástica” (título em grego Ekklesiastike Historia. Título em latim Historia Ecclesiastica ou Historia Ecclesiae)   cujo autor é Eusébio de Cesaréia e “Da morte dos perseguidores” (título em latim:  De mortibus persecutorum),  cujo autor é Lactâncio.

Você terá que saber se esses autores são contemporâneos da promulgação do Édito de Milão.  Procurando, descobrirá que os lugares de memória construídos pelo ser humano,  entre os quais está a Internet,  preservam o conhecimento de que Eusébio de Cesaréia viveu entre os anos 265-339 e Lactâncio entre 240 a 320,  e que portanto os 2 autores são contemporâneos desse Édito. .   

 Agora você terá que ler.  Mas a leitura e interpretação desse caso será deixado para o 3º módulo do curso.

4º aula:  Quando você quer saber quando algo aconteceu:  Registros em outros calendários

Na aula passada aprendemos a datar a partir do calendário cristão.  Para aqueles acontecimentos em que a datação das testemunhas foi feita baseada em outro calendário será necessário ser informado de uma referência.  Por exemplo, “aconteceu no ano x do reinado do rei y”.   E depois deve-se estabelecer a correspondência com o calendário cristão.  No entanto,  porque para entender a referência é necessário ler o documento,  deixaremos esse problema para o próximo módulo do curso na qual estudaremos a data da iluminação do Buda Shakyamuni.  

 

 3º módulo:   Crítica interna,  crítica externa e compreensão  

1ª aula:  1º caso: O problema da tolerância religiosa na política do Brasil Imperial de acordo com a Constituição de 1824:   

1ª parte:  A crítica interna:

Na segunda aula do 2º módulo,  como exemplo de como saber se algo aconteceu ou existiu tratamos de um problema,  que é o problema da tolerância religiosa na época do Brasil Imperial de acordo com a Constituição que o imperador Dom Pedro I outorgou em 1824.

O tratamento não foi completado porque é necessário,  para  responder a questão se essa Constituição realmente proibia qualquer outra religião que não fosse a católica,  realizar um trabalho de crítica interna. 

Estando já com o texto em mãos,  você terá que ler e interpretar.   Porque a História é uma Ciência e Ciência é trabalho com colaboração,  não é necessário que o pesquisador saiba ler no idioma,  na escrita e na caligrafia original para que seja realmente um trabalho de historiador.  Isso é necessário para o filólogo.  Não para o historiador.   Isso vale para qualquer limite de tempo e de espaço.    

No entanto é necessário conhecer a credibilidade daqueles que nos transmitiram o documento,  a fonte,  por meio de transcrições e,  se for estrangeiro,  de traduções.   

Voltando a questão sobre a  Constituição de 1824,  se você começar a ler o texto,  irá encontrar,  no título 1, artigo 5, o seguinte:

“A Religião Católica Apostólica Romana continuará a ser a Religião do Império.  Todas as outras Religiões serão permitidas com o seu culto doméstico ou particular em Casas para isso destinadas,  sem forma alguma exterior de Templo”.

Lendo bem conseguiremos chegar a correta interpretação de que a Constituição de 1824 não proibia qualquer outra religião que não fosse a cristã-católica.  Que a afirmação de que havia essa proibição é uma afirmação falsa.

No entanto,  pode acontecer de que o documento que temos em mãos seja uma falsificação.  Por isso é necessário realizar o trabalho de crítica externa.

2ª parte:  A crítica externa

 Para saber se o documento é autêntico ou não é necessário realizar um estudo comparativo.  Nesse caso deve ser realizado um estudo que compare a caligrafia e o tipo de papel desse documento com as de outros manuscritos atribuídos ao imperador Dom Pedro I.    Se nessa comparação for encontrado que a caligrafia e o tipo de papel são os mesmos de outros manuscritos atribuídos a Dom Pedro I temos um sinal favorável a autenticidade do documento.

Esse sinal,  porém,  não é conclusivo.  Pois mesmo aí pode haver falsificação.   O que fazer? É necessário comparar com dados de outras áreas da História;  a história dos modos de gravação de palavras,  a história da caligrafia.  Se nessa comparação for descoberta que na década de 1820 se usava caligrafia e papel como do manuscrito temos mais um sinal de autenticidade.  Porém esse indício também não é concludente.  O que fazer?

Aqui é necessário entender que a História não é uma Ciência Exata,  que o que temos nesse caso é uma probabilidade e que,  se não temos como provar que houve falsificação e como isso teria ocorrido,  devemos aceitar a probabilidade maior,  que é da autenticidade do documento.

3a parte:  O historiador em busca da compreensão  

Os historiadores da Escola Positivista Francesa do século 19,  entre os quais Ernest Lavisse,  Charles Langlois e Charles Seignobos julgavam que após a crítica interna e externa bastava colocar a documentação em ordem cronológica e mostrar o resultado da investigação.  Porém se você não quer apenas o conhecimento,  se você quer sabedoria,  isso não basta.  Tendo encontrado o documento,  lido,  interpretado,  chegado à conclusão de sua autenticidade, é necessário responder perguntas para a compreensão do objeto.  Essas perguntas são:  em qual e para qual espaço geográfico esse documento foi escrito e publicado? Por qual e para qual tipo humano?  Por qual psicologia individual e para qual psicologia coletiva? Para qual sociedade?  Como era essa sociedade?  Em que idioma seus membros se comunicavam?  E,  para responder a essas perguntas é necessário sair da área da história das Constituições do Brasil para estudar Geografia,  Antropologia,  a psicologia do imperador Dom Pedro II,  psicologia coletiva no Brasil da década de 1820,  sociologia do Brasil na mesma década,   lingüística.  E é claro que aqui deverá haver colaboração entre pesquisadores de diversas áreas. 

4ª As teorias da História

Para responder a essas perguntas os historiadores recorrem a teorias de outras ciências.  Há escolas teóricas da Historiografia,  assim como a escolas teóricas do Direito,  da Psicologia e de outras ciências.   Existe a escola empiricista que acredita que essas perguntas só podem ser respondidas por documentos de época,  encontrados em lugares de memória,  e provados autênticos.   Existe o marxismo,  que pretende impor a História a teoria da luta de classes e da relação entre infra-estrutura econômica e super-estrutura ideológica.  Existe a Escola dos Annales fundada pelos historiadores franceses Marc Bloch e Lucien Febvre em 1929 e que propõe o estudo não de fatos ou eventos, mas de civilizações  e sociedades.  Existe a “Nova” História Cultural Francesa representada por historiadores como Jacques Le Goff,  Georges Duby,  Pierre Nora,  Roger Chartier e Regine Pernoud,  que propõe o estudo de mentalidades,  imaginários e representações.  Existe a Micro-História que ao invés de ir do maior para o menor como propõe a Escola dos Annales,  propõe ir do menor para o maior.   Qual escola seguir?  Essa é uma pergunta que só você pode responder para você.

  A cronologia e o compartilhamento do resultado

 Tendo encontrado a documentação,  lido,  interpretado,  chegado a conclusão de sua autenticidade e passado do conhecimento para a compreensão através da interdisciplinaridade  chegou a hora de colocar o documento numa série cronológica e escrever um texto onde você irá mostrar o resultado de sua pesquisa de historiador que não quer apenas conhecimento,  mas também sabedoria.  Nesse texto tanto pode ser usado a forma expositiva como a forma narrativa.

Exercícios proposto para os alunos do curso: 

Aviso:  O valor do serviço de orientação em pesquisa será combinado em conversa por e-mail. 

1º Escreva uma redução dizendo,  com suas palavras,  e de acordo com o que foi ensinado nessa aula,  como encontrar a Constituição Brasileira de 1824,  como encontrar nessa Constituição a resposta para a pergunta “A Constituição de 1824 proibia qualquer outra religião que não fosse a católica?”,  como provar a autenticidade do documento.  Justifique a importância da sua redaação.  Envie sua redação para o e-mail bobhaeberlin@gmail.com

  Pesquise para encontrar respostas para as seguintes perguntas:   Em qual e para qual espaço geográfico essa Constituição foi escrita e publicada? Por qual e para qual tipo humano?  Por qual psicologia individual e para qual psicologia coletiva? Para qual sociedade?  Como era essa sociedade?  Em que idioma seus membros se comunicavam? Justifique a importância da sua pesquisa e da sua redação.  Envie o resultado de sua pesquisa para bobhaeberlin@gmail.com.   

 

 

 2ª aula:  2º caso:  O Édito de Milão

Você já sabe como encontrar um documento e por isso sabe como encontrar o texto do Édito de Milão.   Acontece,  porém, que você encontrou o texto em autores que escreviam em outros idiomas,  em grego e latim.  Não é necessário se desesperar.  Porque a História é uma Ciência e Ciência é trabalho com colaboração,  não é necessário que o pesquisador saiba ler no idioma,  na escrita e na caligrafia original para que seja realmente um historiador.  Isso é necessário para o filólogo.  Não para o historiador.  Você não precisa aprender a ler escrita cuneiforme suméria para fazer pesquisa de historiador sobre os sumérios,  nem escrito hierogláfica egípcia para fazer pesquisa de historiador sobre os antigos egípcios.  Se puder fazer,  ótimo.  Você é um super-erudito.  Mas basta a confiança,  porque o intelectual,  o cientista, não é um solitário.

O que você vai precisar fazer com relação ao Édito de Milão é ler,  interpretar,   testar sua veracidade,  responder perguntas para transformar o conhecimento em compreensão,  por numa cronologia e expor o resultado.  Porém aqui há uma diferença. Pois você não tem o texto mesmo do manuscrito escrito pelo imperador Constantino nem outros manuscritos desse imperador para comparar as caligrafias e os objetos de gravação do Édito.  Você tem esse texto legislativo citado por outros autores.   Isso significa que além de testar a autenticidade do documento,  também terá que testar a veracidade e a fidedignidade dos autores,  de Eusébio de Cesaréia e de Lactâncio.   Primeiro você chega a uma conclusão sobre a autenticidade,  depois da veracidade,  por último da fidedignidade dos autores.  O historiador parte de uma atitude de confiança que é uma aposta para terminar na conclusão afirmativa ou negativa sobre a autenticidade, a veracidade e a fidedignidade.  Como todo cientista,  não deve ser nem um solitário, nem um paranóico,  nem alguém intelectualmente desonesto.

Exercícios propostos para os alunos:

1º Escreva uma redação dizendo com suas palavras e de acordo com o que foi ensinado,  como saber a data do Édito de Milão.    Envie sua redação para bobhaeberlin@gmail.com

2º Faça uma pesquisa para descobrir alguma data qualquer a partir do calendário cristão.  Envie uma redação mostrando sua pesquisa e o resultado.

 

3ª aula:  3º caso:  Nascimento,  Iluminação e Morte do Buda Shakyamuni    

Na última aula desse curso veremos um caso que servirá para o aprendizado de como lidar com o problema de datas que não usam como referência o calendário cristão.  O caso escolhido foi o do nascimento,  iluminação ou nirvana e morte ou parinirvana do fundador do budismo,  o Buda Shakyamuni

Os passos para descobrir que proponho são os seguintes:

  encontrar o texto mais antigo que registra essas datas

2º Ver qual a referência usada:  Pode ser o período do reinado de um rei, uma data nesse reinado. Por exemplo,  “o ano tal do reinado do rei tal”,  etc

    Ver trabalhos de estudiosos que comparam essa referência com datas do calendário cristão lembrando que pesquisa científica é trabalho com colaboração e você não precisa fazer tudo sozinho,  nem deve agir como um paranóico e pensar que todo mundo pode estar enganando. 

4º Perceber que a data corresponde a x anos antes ou depois do nascimento de Cristo.

Nesse caso,  você descobrirá que a referência usada corresponde a X ou Y anos antes do nascimento de Cristo,  pois os historiadores debatem essas datas,  alguns dizendo que o príncipe Sidarta Gautama teria, segundo a tradição budista,  se tornado o Buda, o Iluminado,  o Desperto,  cerca de 1000 anos antes de Cristo enquanto outros colocam essa data próximo do ano 594 a.C e outros próximo do ano 533 a.C. 

E assim,  com esse exemplo,  encerram-se as aulas deste curso de pesquisa historiográfica.   Me ponho a disposição para responder dúvidas (que eu puder responder) e prestar orientação.

 Exercícios propostos para os alunos:

1º.  Envie uma redação dizendo como encontrar uma data para a iluminação do Buda.  Envie sua redação.

  Faça uma pesquisa sobre como encontrar outra data a partir de outro calendário que não seja o cristão.  Envie sua pesquisa e o resultado.

 

 

 

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