Dissertação sobre a Ciência da Cruz e o Homem como animal naturalmente religioso
Introdução:
O ser humano é o único animal capaz de
religião. A religião é uma
potencialidade do Homem como animal racional.
Alguns disseram que se outros animais tivessem religião seus deuses
teriam sua forma assim como os deuses dos gregos e romanos eram
antropomórficos. Nenhum desses críticos
da religião, porém, se perguntou por que
outros animais não têm religião. Mas a
resposta é simples: Porque são animais
irracionais. A capacidade que lhe é
natural de pensar que há um Todo infinito com entes ordenados dentro desse Todo
e de distinguir (nesse Todo) formas de relação,
seja horizontal, seja vertical, torna a religião uma potencialidade para o
Homem. Mas o Homem recebe desse mesmo
Todo, desse Logos, essa capacidade. Há naturalmente para o homem uma relação
vertical entre o humano e o Divino. A
religiosidade é natural para o ser humano porque a racionalidade é.
Como podemos
demonstrá-lo? Como podemos pôr essas
afirmações à prova para ver se resistem à provação?
Para responder essa pergunta farei uso do método que Marc
Bloch propôs no qual a história é estudada e exposta (ou narrada) partindo do
mais recente e indo para o mais antigo.
Capítulo 1: O super-homem de Nietzsche e a grande ruptura niilista preparada pela “ditadura do relativismo”.
A essência
de toda religião autêntica é a renúncia da vontade própria e a obediência a
vontade de um plano superior. Para
entrar realmente em uma e nela permanecer é preciso ser um aprendiz daquilo que
Edith Stein chamou de “ciência da cruz”. Daí que é necessariamente não
religioso o tipo humano ao qual Nietzsche deu o nome de “super-homem”. Pois esse “super-homem” não quer aprender a
“ciência da cruz”. É também necessariamente um niilista esse tipo ,que vemos
aparecer na literatura de ficção, em
obras como “O idiota” e “Crime e Castigo”,
do escritor russo Fiódor Dostoievski, e em outras. Dele,
do super-homem niilista, surgiu a situação ao qual o cardeal da Igreja
Católica Joseph Ratzinger, antes de seu
pontificado como papa Bento XVI chamou de “ditadura do relativismo”. Trata-se de uma ditadura da subjetividade
individual que, como tal, rejeita por
princípio a renúncia da vontade própria,
rejeita a “ciência da cruz”, que
é “loucura para os que se perdem,
mas, para os salvos, poder de Deus e sabedoria de Deus” (1
Coríntios 1, 18). É uma mentalidade
necessariamente anti-religiosa e niilista.
Capítulo
2: Breve anotação sobre a religiosidade
do positivismo e da Revolução Francesa
Capítulo 3: O racionalismo iluminista preparado pelo
racionalismo renascentista
O
racionalismo religioso ou religião racionalista dos iluministas que prepararam
a Revolução de 1789 foi preparado por um racionalismo surgido cerca de 2
séculos antes nesse período de grande ruptura que foi o Renascimento. A obra mais representativa desse racionalismo
renascentista surgiu da pena de um representante da religião tradicional, de um cônego da Igreja Católica, o polonês Nicolaus Copernicus. Trata-se de “Da revolução dos corpos
celestes”, na qual é proposta como
solução para seríssimo problema da astrononia
a hipótese que a Terra e os outro planetas giram em órbitas circulares
ao redor do Sol, sendo esse situado no
centro do Universo mesmo.
Copérnico
não era um devoto da deusa Razão. Era um
clérigo católico. No entanto, negar a experiência humana comum como
Copérnico negou substituindo essa pelo que lhe parecia mais racional foi o primeiro passo para o surgimento da
religião racionalista dos revolucionários de 1789[1].
Capítulo 4: O destino
de Lutero: Breve anotação.
Para essa Cristandade, existia ordem porque existe o Logos, a Razão Divina, a 2ª pessoa da Santíssima Trindade, a qual é necessário obedecer para que o Homem saiba bem ordenar aquilo que lhe cabe ordenar. A mentalidade do Homem medieval não era, de modo algum, irracionalista. A escolástica de um Duns Scotus, de um Santo Tomás de Aquino, de um São Boaventura, de um Santo Alberto Magno, não era, não foi, naquele tempo, uma exceção, uma anomalia. Foi uma expressão intelectual, científica, da mentalidade comum, coletiva. Todos os que participavam dessa União Européia que era o Ocidente Cristão Medieval, do mais ignorante camponês até mais erudito professor de universidade pensavam, julgavam, convicto estavam de que, sem a obediência a uma autoridade situado em um plano superior, não há ordem e, portanto, não há paz.
Capítulo 6: Roma
antes de Teodósio e Constantino
As tradições a respeito dos inúmeros adeptos da fé cristã
vítimas da intolerância religiosa, tornados mártires do cristianismo por causa
dessa intolerância, são a prova
suficiente que, em Roma antes de
Teodósio e do edito de tolerância de Constantino I, religião era uma questão de
Estado[1]. Sempre fora:
No período imperial, no período
republicano e no tempo dos reis. Também para os antigos romanos a ordem e a
paz dependiam do culto religioso a autoridade situada em algum plano superior
aos simples mortais.
Capítulo 7: Grécia e culturas do Oriente
Também era questão de Estado a religião nas cidades-estados
da Grécia, qualquer que fosse a forma e
o regime de governo, e nas culturas dos
orientes próximo, médio e extremo. Em todas elas o pensamento sociológico era de
que é necessário alguma forma de culto religioso para que seja mantida a ordem
e, consequentemente a paz, que não existe sem a ordem.
Conclusão
Acreditar na possibilidade de ordem e
de paz sem algum culto religioso é anomalia na história humana. Já Durkheim (1858-1917) admitiu a verdade de
que a religião existe para preservar a ordem social. Depois dele,
Georges Dumezil (1898-1986) conseguiu encontrar em teóricos medievais
como Adalberon de Laon e Abbon de Fleury uma teoria da sociedade tripartite
segundo a qual em toda a sociedade deve haver uma ordem de pessoas
especialmente dedicada ao culto religioso,
e a qual o bispo Adalberon deu o nome de “oratores” e o anônimo abade de
Fleury de “clerici”. Tripartição que
encontramos também na República imaginada por Platão, que dividiu sua república ideal socialmente
em governantes-filósofos, guerreiros e
trabalhadores, sendo aí os
governantes-filósofos os responsáveis pela mediação entre o plano dos humanos e
o plano dos deuses. Enfim,
encontramos uma outra forma de afirmação da necessidade de uma ordem de
pessoas especialmente dedicada a religião na teoria hindu das castas que divide
a sociedade em brâmanes (clérigos),
xátrias (equivalente aos bellatores ou militares da divisão de Adalberon), vaishyas e
shudras (equivalente aos laboratores da mesma divisão). Essas são apenas partes da verdade. Uma outra
parte é de que o homem é um animal naturalmente religioso, porque é naturalmente racional. Tende a obediência ao Logos, a Racionalidade que distingue e ordena as
coisas, os entes. Se
fizermos a pergunta “por que, antes do
advento do tipo que julga ser o super-homem profetizado por Nietzsche os seres
humanos acreditaram que a religião era necessária?” teremos mais verdades para
serem somadas nessa somatória. Se
fizermos a pergunta, “ por que existem
religiões?”, já temos uma primeira
resposta para colocarmos na somatória de
respostas: o ser humano é um animal
naturalmente religioso porque é um animal naturalmente racional que, como tal,
se entrega ao aprendizado da renúncia da vontade própria, do renunciar a si mesmo, assumir sua “cruz” e seguir o Verbo. Da “ciência da cruz”, diria Santa Edith
Stein.
Fontes consultadas
Aviso: Boa parte do
que foi colocado nessa dissertação são memórias de leituras e de aulas do tempo
em que fui aluno do Curso de História da Faculdade de Filosofia e Ciências
Humanas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul ente os anos de 2003 e 2008. A esse
recurso a memória se deve as imprecisões dessa dissertação. As fontes bibliográficas mencionadas e não
mencionadas identificáveis que foram utilizadas para compô-la são as seguintes:
A Ciência da Cruz. De Edith Stein
A Escola dos Annales: A Revolução Francesa na
Historiografia. De Peter Burke
Combates pela História.
De Lucien Febvre
O problema da incredulidade no século XVI: a religião de Rabelais. Idem.
Apologia da História: O ofício do historiador. De Marc Bloch
A sociedade feudal.
Idem.
Os reis taumaturgos.
Idem
O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrânico no tempo de Felipe
II. De Fernand Braudel
História e matemática.
Idem.
A civilização do Ocidente
Medieval, de Jacques Le Goff
O imaginário medieval,
idem
Os intelectuais na Idade Média, idem
Mercadores e banqueiros da Idade Média, idem
Nota sobre a sociedade tripartida, ideologia monárquica e renovação econômica na
Cristandade, do século IX ao século
XI. Artigo publicado em “Para um novo
conceito de Idade Média: Tempo, trabalho e cultura no Ocidente”. Idem.
A construção do Ocidente Cristão. De Georges Duby
O tempo das catedrais: a arte e a sociedade. Idem
A sociedade cavaleiresca:
Idem
Guilherme, o Marechal:
O melhor cavaleiro do mundo. Idem
Luz sobre a Idade
Média. De Régine Pernoud
A mulher no tempo das catedrais. Idem
Vida e morte de Joana d’Arc.
Idem
O queijo e os vermes.
De Carlo Ginzburg
História do Rio Grande do Sul dos 2 primeiros séculos. Obra em 3 volumes. De Pe Carlos Teschauer.
História. De Heródoto. O texto grego pode ser consultado em https://www.hs-augsburg.de/~harsch/graeca/Chronologia/S_ante05/Herodot/her_his0.html
História dos francos.
De Gregório de Tours. O texto em
latim pode ser consultado em https://www.hs-augsburg.de/~harsch/Chronologia/Lspost06/Gregorius/gre_hi00.html
As religiões do mundo.
Curso proferido pelo professor Luiz Gonzaga de Carvalho Neto no ano de
2010.
Assim falou Zaratrusta.
De Friedrich Nietzsche
Homilia Pro Eligendo Romano Pontifice proferida pelo cardeal
Joseph Ratzinger na abertura do Conclave de 2005
Da revolução dos corpos celestes. De Nicolau Copérnico. O texto em latim pode ser consultado em https://www.hs-augsburg.de/~harsch/Chronologia/Lspost16/Copernicus/kop_r00.html
Crime e Castigo. De Fiódor
Dostoievski
O idiota. Idem
Como a Igreja Católica construiu a civilização
ocidental. De Thomas Woods Jr.
História da literatura ocidental: Volume 1:
Renascença Cristã: A
Reforma. De Otto Maria Carpeaux
História da Grécia.
Obra em 12 volumes. De George
Grote
História de Roma. Obra
em 5 volumes. De Theodor Mommsen
História da civilização.
1ª e 2ª parte. De Will
Durant.
[1] E também para o surgimento de uma classe de profissionais da Ciência que não quer partir do conhecimento comum, mas quer mudar o conhecimento comum. Parece até que querem imitar os padres da Igreja Católica, quando esses ensinam aos catecúmenos que, o que lhes parece ser apenas pão e vinho, são, na verdade, o Sacratíssimo Corpo e o Sacratíssimo Sangue do Filho de Deus, Nosso Salvador. É o que parece quando nos dizem “parece que o Sol e os outros planetas giram em torno da Terra, mas na verdade, o que acontece é o contrário”.
[1] São Gregório de Tours (538-594) foi um bispo católico que escreveu uma “História dos francos”, um dos povos germânicos que ocuparam partes do território do Império Romano do Ocidente no período de transição da Antiguidade para a Idade Média e de formação da Europa Cultural. Ele acreditava ( a informação foi tirada da monumental História da Literatura Ocidental de Otto Maria Carpeaux) que a tarefa do historiador é provar a presença da Providência de Deus na História Humana.
[1] O Padre Carlos Teschauer (1851-1930) foi um religioso jesuíta e historiador alemão residente no Brasil que escreveu uma história do Rio Grande do Sul em 3 volumes, nos quais trata desde a fundação das reduções jesuíticas até o surgimento, como conseqüência do fim dessas reduções, do gaúcho como tipo humano sul-riograndense. No início do primeiro volume de sua obra o próprio Padre Teschauer usa a expressão “o Santuário da História” para se referir ao objeto de estudo do historiador.
[2] O historiador grego Heródoto (485-425 a.C.)
escreveu no início de sua obra a respeito das guerras entre gregos e persas o
seguinte “Heródoto de Halicarnasso ao escrever essa História teve por intenção
fazer com que as grandes ações empreendidas por gregos e por bárbaros não
caíssem no esquecimento.” O texto grego (que pode ser lido no site da
Bibliotheca Augustana) diz: “Ἡροδότου
Ἁλικαρνησσέος ἱστορίης ἀπόδεξις ἥδε, ὡς μήτε τὰ γενόμενα ἐξ ἀνθρώπων τῶι χρόνωι
ἐξίτηλα γένηται, μήτε ἔργα μεγάλα τε καὶ θωμαστά, τὰ μὲν Ἕλλησι τὰ δὲ
βαρβάροισι ἀποδεχθέντα, ἀκλεᾶ γένηται, τά τε ἄλλα καὶ δι᾽ ἣν αἰτίην ἐπολέμησαν
ἀλλήλοισι.” (“Herodotou Alikarnêsseos
istoriês apodecsis êde, ôs mête ta gnomena ecs anthrôpôn tôi chronôi ecsitêla
genêtai, mête erga megala te kai
thômasta, ta men ellêsi ta de barbaroisi
apodechthenta, aklea genetai, ta de alla kai di ên aitiên epolemêsan
allêloisi”).
[1] Representada por historiadores como os franceses Ernest Lavisse (1842-1922), Charles Seignobos (1854-1942), Charles Langlois (1863-1929) e Fustel de Coulanges (18830-1889) a Escola Positivista de historiografia defende que ao historiador basta saber interpretar os documentos, saber verificar se são autênticos e verídicos, colocá-los em ordem cronológica e narrar. Essa Escola surgida no século XIX tem por objetivo a narrativa exata de eventos de política nacional e internacional usando documentos governamentais.
[2] A Escola dos Annales é o nome dado a forma de historiografia proposta pelos dois fundadores da Revista dos Annales, os historiadores franceses Marc Bloch (1886-1944) e Lucien Febvre (1878-1956). Eles romperam com a Escola Positivista e propuseram uma historiografia que estude mentalidades coletivas, sociedades, civilizações. Assim, duas das mais importantes obra de Bloch, que era um medievalista, têm por títulos “A sociedade feudal” e “Os reis taumaturgos: estudo sobre o caráter sobrenatural atribuído ao poder taumatúrgico atribuído aos reis particularmente na Inglaterra e na França” e duas das mais importantes obras de Febvre tem por título “Europa: Gênese de uma Civilização” e “O problema da incredulidade no século XVI: a religião de Rabelais”. Porque os documentos governamentais não são suficientes para o conhecimento de mentalidades coletivas, sociedades e civilizações, propuseram também uma plurificação das fontes, daquilo que pode ser considerado fonte pelo historiador, além de terem rejeitado o método positivista da Escola Positivista também chamada Metódica e proposto o uso de teorias da antropologia, da geografia, da psicologia, da lingüística e da sociologia para a resolução de problemas da Ciência Histórica.
Numa geração seguinte, o historiador também francês Fernand Braudel (1902-1985), autor de “O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrânico na época de Felipe II”, propôs, em um artigo publicado na Revista dos Annales, a aplicação da matemática na resolução de problemas da história da economia. Pode parecer obviamente necessária essa aplicação, mas acontece que Braudel, Febvre e Bloch não estavam interessados em narrar mas em resolver problemas que encontravam, como, por exemplo, quais os fatores que geram mudança na situação econômica de uma região, quais as condições mentais para a existência de ateísmo, e se a Ciência Histórica serve de método para análise e explicação de uma estrutura social com suas conexões.
Depois, numa terceira geração, a Escola dos Annales foi rebatizada com o nome de Nova História Cultural Francesa, e aí aparecem nomes como Jacques Le Goff (1924-2014), autor, dentre muitas outras obras, de “A civilização do ocidente medieval”, “O imaginário medieval”, “Os intelectuais na Idade Média” e “Mercadores e banqueiros na Idade Média” e Georges Duby (1919-1996) autor de “A construção do Ocidente Cristão”, “O tempo das catedrais: a arte e a sociedade”, “A sociedade cavaleiresca” e “Guilherme, o Marechal: o melhor cavaleiro do mundo” e muitas outras obras.
Na quarta geração, representada por nomes como Roger Chartier (nascido em 1945) e Jérôme Baschet (nascido em 1960), o interesse se desloca da história total ou global que Bloch e outros quiseram escrever em obras como “’A sociedade feudal” para um diálogo com a Micro-História, cujo mais conhecido representante é o historiador ítalo-alemão Carlo Ginzburg (1939-17 de junho de 2026), autor de “O queijo e os vermes” e que rejeita o interesse no estudo dos períodos de longa duração e propõe o estudo de casos.
Enfim, relacionada com a Escola dos Annales pelo interesse igual na História Cultural está a obra da grande historiadora francesa Régine Pernoud (1909-1998), autora de obras como “Luz sobre a Idade Média”, “A mulher no tempo das catedrais” e “Vida e morte de Joana d’Arc”: as testemunhas do processo de absolvição”.
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